31 de agosto de 2016

Estranha cerimônia fúnebre... Diversos pastores ao redor do túmulo, todos com expressões satisfeitas, justificando sua satisfação com reinterpretações do Velho Testamento. Um pouco afastado, um homem, cujo formato do corpo lembrava um pino de boliche, ostentava um sorriso cínico — não julgava necessário fingir lágrimas outra vez. Ao seu lado, sua esposa, observando tudo com uns olhos muito arregalados. Pouco mais atrás, dois sujeitos cochichavam; num trecho da conversa, era possível ouvir um deles dizer: “Ah, mas em 92 foi um absurdo... Um absurdo! Uma tremenda injustiça! Mas hoje a situação é completamente diversa. Hoje é legítimo... É legítimo!” Outro sujeito, grisalho, expressão sádica, andou confiante em direção à sepultura. Parando, pois, diante dela, começou um discurso maquiavélico, no qual, em vez de relembrar os feitos da defunta, relembrava, orgulhosamente, o nome de torturadores e generais. Ao fim do palavrório, os circunstantes gritaram um “AÊÊÊÊÊÊÊÊÊ!”, e, enquanto aplaudiam, abriam espaço para a passagem de outro homem. Este estava junto a uma bela mulher — que, não bastasse ser bela, ainda era recatada e do lar —, que o acompanhou até o lugar de onde acabara de sair o discursador. Dali, fez uma reverência aos presentes e subiu no túmulo. E sorria, ah, como sorria... Então, sob aplausos animados, pôs-se a sambar no seu palanque improvisado. Bonito espetáculo...! Recaíam, enquanto ele sambava, milhares de papeizinhos sobre todos — papeizinhos reaproveitados, claro, seguindo rigorosos princípios ecológicos: eram restos de Constituição e de títulos eleitorais. Ao fim do samba, o homem sobre o túmulo, tomando fôlego, exclamou: “Temer-se-á muito ainda... Aguardem!” “VIVAAAAAAA!”, os demais exclamaram. 

Tornou a descer do túmulo, estendendo sobre o mesmo, em seguida, uma bandeira na qual se lia “Desordem e regresso”. A essa altura, já se encontrava, à sua direita — à sua amada direita —, o famoso mineiro que, diziam, tinha fama de mau perdedor. Os dois trocaram um beijo apaixonado. E os pastores aplaudiram — que surpresa! —, enquanto diziam que, naquele caso específico, era sabido: a Bíblia permitia beijos homossexuais.

Outro homem pigarreou, chamando para si a atenção, e disse: “Por Deus, pelo meu país, pela minha família (e por toda família tradicional brasileira), pela minha filha mais velha, pela minha filha mais nova, pelos filhos que eu ainda vou ter (com a graça do Senhor), pelo meu cachorrinho Basset, pelo meu canário que morreu no ano passado, eu declaro muito bem encerrada esta sessão.

O muro do cemitério era alto. Mantinha, do lado de fora, todos que, com a tão ridiculamente planejada morte da Democracia, perdiam seu voto, perdiam sua voz, perdiam sua vez.

10 comentários:

  1. Se a democracia é feminina, o Brasil é um travesti.
    GK

    ResponderExcluir
  2. É triste... mas ainda há povo para ressuscitá-la. Vamos sair numa procissão pela democracia!!

    ResponderExcluir
  3. Que essa procissão aconteça em 2018, vocês são inteligentes demais, para perderem-se nos mapas da emoção. A propósito, teu texto deveria ter sido lido por um senador.
    Saudações!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. 2018 ainda está longe... Há muita coisa errada acontecendo neste exato momento.

      Excluir
  4. Muito inventiva e inteligente sua alegoria política, Lari.

    Quase intragável essa sensação de impotência, de ver que somos palhaços de um circo sem fim. Conseguiram, tiraram o foco da lava jato e vão legalizar a corrupção.

    Um amigo meu de infância, consternado, ligou-me no meio da noite, voz esmorecida, tom lúgubre, parecia em luto. Realmente perdemos algo importante.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Vitor!

      Concordo com você e compreendo as emoções do seu amigo. É extremamente revoltante tudo o que está acontecendo... Perdemos algo importante e que havíamos recuperado há tão pouco...!

      Excluir
  5. Foi um triste enterro, mas comemorado por muitos. Eu queria que eles estivessem certos, eu preferia. Mas eu temo... Estamos à mercê não apenas de políticos mau caráter mas também de uma população que escolhe a escuridão da ignorância. Eu fico bem triste quando penso nisso.

    Parabéns pelo texto, Lari. Ficou maravilhoso.

    Beijos de luz, ainda mais nessa época trevosa. <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu também fico extremamente triste, Ana... Um sentimento de incapacidade toma conta de mim quando vejo a que ponto chegamos e percebo que tem muita gente que, seja por ignorância, seja porque pretende tirar proveito da situação, está achando tudo muito lindo.

      Muito obrigada! Beijos para você também!

      Excluir