Rápida e enfadonha existência, póstuma insignificância


Nascido havia pouco, o sentimento ainda não tinha nome. Também era cedo para saber com o que se parecia — melancolia? Aflição? Arrependimento? Desespero? 

O sentimento, inominado e disforme, dormia muito. Mas ressonava alto, mantendo-me acordada. E quando, por sua vez, acordava, aí é que eu não dormia mesmo... E comia, como comia... Alimentava-se, vorazmente, dos meus pensamentos. Do meu tempo. De mim.

Pelo bem ou pelo mal, durou pouco, o pobrezinho. Foi-se em setembro: uma rajada de vento o levou.

E foi-se sem nome, foi-se sem forma. Foi-se sem rastro. 

Nenhuma lápide deixou para provar que um dia, de fato, existiu. 

6 comentários:

  1. Quase como a insônia ou a ansiedade. Parece com aquele sentimento angustiante e diferente, que resolve aparecer de vez em quando aqui em casa. Sem dizer de onde veio ou quando vai embora.
    As fotos combinaram muito bem com o texto, e são muito bonitas.

    Mrs Poirot

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  2. O titulo do poema diz mais do que o poema em si, porque a existência é ágil e como música pode mudar os tons e as imagens dizem que o póstumo não é uma condição pra quem diz que foi enfadonho o existir...
    Eu gosto de quando tu te faz contraditória, isso te faz mais ampla. (isso dizia Walt Whitman) E eu respeito o que ele diz.
    Bom fim de semana e te saúdo com quem diz; obrigado.

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    1. Eu também o respeito... E ele (grande poeta!) merece o nosso respeito.

      Eu lhe desejo o mesmo e, por minha vez, sou grata a você também: obrigada!

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  3. Se o indizível dizível fosse, inaudível seria.
    GK

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    1. Aí está uma coisa na qual eu nunca tinha pensado... Um bom poema!

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