Espírito esportivo

Mês passado, o dia em que a tocha olímpica ia passar pela cidade. A multidão se aglomerava nas calçadas, ansiosa, fotógrafos serpenteavam pelas ruas, o pessoal da TV logo estaria ali também. Vendo, nesse contexto, uma excelente oportunidade de marketing, uma agência bancária parou uma van com seu logotipo quase que em frente ao teatro municipal, começando, então, a distribuir uns bastõezinhos inflados. Igualmente identificados com sua marca, eles foram apelidados de “tochas”.

Era uma cena emocionante: crianças de cinco ou seis anos mal pegavam suas “tochas” e já se punham a correr pelas escadarias e pátio de entrada do teatro, gritando e espancando-se umas às outras com o brinquedo novo, danando-se para o fato de que a tocha olímpica verdadeira passaria a qualquer momento.

De repente, começaram a brotar crianças de todos os lugares — surgindo pelas esquinas, descendo pelos telhados, saindo pelos bueiros — em torno da van, porque, ouviram dizer, as tais tochas estavam acabando. Quem conseguia pegar a sua saía gritando “CONSEGUI! CONSEGUIII! CONSEGUIIIIII!”, atirando-se, em seguida, de joelhos ao chão e agradecendo aos céus.

Mas o mais comovente de tudo foi uma cena que se passou bem perto de mim: um menino, que acabara de sair da muvuca de mãos vazias, se dirigiu à mãe no tom mais desanimado possível: “Não consegui”. Juro que eu esperava que a mulher, com sua bondade materna, lhe abraçasse, lhe lançasse uma palavra de consolo, insuflasse, de alguma forma, um sopro de alívio naquela pequena alma amargurada. O que ela realmente fez? Olhou para o garoto e, com a voz mais maléfica possível, disse: “MAS É PAMONHA MEMO, VIU!

É assim que se fazem traumas de infância.

4 comentários:

  1. Égua, essa tal de tocha deu o maior bafafá quando passou aqui em Belém. Sinceramente, deu mó vergonha umas pessoas que seguraram ela... Enfim, né. Tenho a leve impressão de que se eu tivesse um filho ia chamá-lo de pamonha/abestado/leso só por diversão. Melhor eu não ter filhos ahsuah

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  2. Esse desfecho foi hilário, Lari hahahaha Crônica digna de figurar nas páginas de grandes jornais. Suas crônicas são adoráveis, cheias de estilo e irreverência! Saudades daqui! Beijoos!

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  3. Que tal fazermos a ONG Brasil eleitor? E depois disso e dentro disso, a associação de eleitores do Brasil? Ensinar a pensar me parece ser tão bom quanto teu texto, só que com menos sentimento - que eu sei que tu carregou nele, porque te fez sofrer, sentir isso.
    Mas Larissa, temos que ir além dos blogs e penso que você tem perfil
    pra desenvolver ideias que nos levem ao fim comum. Sem piadas nem risadas, além da satisfação de realizar.
    Bom resto de semana.

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  4. Meu Deus, eu queria encher o comentário com ks, mas esteticamente fica feio. Eu estava me preparando para escrever um texto melancólico, coloquei até uma música triste. Mas antes, resolvi ler uns blogs e achei o seu. Quando falou que tinha até criança saindo do bueiro, eu já estava rindo. Cheguei a pensar que no final teria algo bonitinho para o coitado do menino. Mas eu ri muito. Adorei!
    Sério, deve ser muito difícil escrever algo com humor, e você foi ótima.
    https://domvisconde.wordpress.com/

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