O Estado melancólico

— É curioso, Marcos Padioleiro, — disse uma das crianças — como você não tem o menor senso de imaginação.

Eram três. Três meninos de 7 ou 8 anos, sentados lado a lado no meio-fio. Três meninos de expressões tristes, olhando tristemente as almas que passavam na rua.

O que atendia por Marcos Padioleiro, filho de um missionário local — de quem herdara as sardas e a alcunha que se convertera em sobrenome —, perguntou o que o outro quisera dizer com aquilo.

— Eu digo “Vamos, vamos, Marcos Padioleiro! Vamos imaginar que somos cavaleiros honrados e temidos! Vamos cavalgar pela cidade derrotando o mal e salvando pessoas indefesas de perigos extraordinários! Vamos conquistar o amor das donzelas!” E tudo o que você faz é me olhar com essa cara de quem acha que eu sou o moleque mais doido do mundo — respondeu.

— O mundo é que é doido, os moleques estão sãos. Pelo menos os que não se deixam enganar pelas almas que passam na rua.

— Que ruindade fazem as almas? No máximo, só assustam, e eu arriscaria dizer que atualmente nem isso.

— As almas seduzem, falam sobre realidades melhores do que esta, sobre as maravilhas de locais onde pássaros cantam, o céu é claro e os banquetes são fartos. Comida! Você consegue acreditar que exista um lugar onde haja comida todos os dias? Eu não, Pedro! E quando você diz isso para alguma alma, quando você diz “Cala a boca, sua idiota, eu sei que você está mentindo!”, ela só o olha com uns olhos brancos meio arregalados, perplexa com sua falta de educação, e em seguida começa a falar novamente sobre essas bobagens, aborrecida por ter sido confinada a este fim de mundo que nos sobrou.

— E por que você não bate nelas? — perguntou o mais miúdo, Serafim, curiosíssimo por uma resposta.

— Que pergunta estúpida! Como é possível bater num ser que não tem corpo?

Com os olhares descrentes que lhe lançaram, Serafim ficou um tanto constrangido... e mudo.

Ficaram mudos os três. Quietos. Cabisbaixos.

As almas passavam na rua. O céu cinza parecia sufocantemente baixo e pesado. As nuvens roncavam, os estômagos também. Da esquina mais próxima vinha a canção do instrumentista cego — aquele que vivia esperando pela esmola que nunca vinha, porque ninguém tinha nada para doar.

Os meninos não eram doidos, o mundo é que era. Estava tudo, tudo errado... Ninguém conhecia a História, ninguém sonhava com o futuro. Apenas sobreviviam e, depois que morriam, continuavam sobrevivendo.

4 comentários:

  1. Bah! Me deixasse super empolgado com a leitura até "ficaram mudos..." quando vi que ia terminar fiquei meio triste, tava lindo demais. Mas depois fiquei pensando que tem um pouco de cada um de nós, quando crianças em mundos diferentes,mexe com as lembranças, bem lindo esse momento.
    Obrigado e boa semana.

    ResponderExcluir
  2. A tristeza não precisa de porquê.
    GK

    ResponderExcluir
  3. Nossa, que texto lindo! Eu sempre fui uma criança muito sonhadora e ainda hoje sou. É triste ver que seus sonhos não batem com a realidade e confuso, para mim, ter que decidir em qual dos dois acreditar: devo continuar sonhando ou devo parar de me iludir e me entregar a realidade?
    Pobre Serafim. Também tenho vontade de bater nessas almas. E loucos são aqueles que pensam que está tudo certo no mundo em que vivemos e aqueles que não fazem nada para mudar isso. Nós estamos sãos.
    Você escreve muito bem Larissa! Beijos.
    {drama queen}

    ResponderExcluir
  4. Sou sã, o mundo é maluco, não compreende quem decide ir contra as regras.
    Texto lindo Lari, parabéns.

    Beijos, Sel | Quinta Gaveta ♥

    ResponderExcluir