Celular, ó traste indispensável!

No livro Senhora (José de Alencar), a protagonista Aurélia, em dado momento, diz que um marido é um traste indispensável às mulheres honestas. Levemos em consideração que a narração se passa há mais de 100 anos, numa época em que era ditado que as mulheres fossem submissas aos homens e velassem por sua honra — não que a situação atual seja muito diferente, infelizmente. O caso é que eu mencionei essa passagem para levantar uma questão: por mais que sejamos originais ou tenhamos opiniões fortes, assim como Aurélia na história do Alencar, sempre nos sentiremos pressionados por certas circunstâncias do sistema em que vivemos e da sociedade com a qual convivemos. Há coisas das quais dificilmente há como fugir; por exemplo, de ter um celular.

Eu tive meu primeiro celular aos nove anos de idade; dos nove aos treze, em 2011, foram três trocas por modelos mais modernos. Depois... estacionei. Parei no tempo. Eu pensava: "Meu celular faz ligações, não faz? Sim, logo meus pais podem me ligar quando ficarem preocupados comigo... Meu celular toca músicas, não toca? Sim, e eu posso passar o dia ouvindo minhas bandas preferidas, se assim desejar. Meu celular tem uma câmera, não tem? Tem... Que eu fotografe o que der na telha. Meu celular, apesar do processador lento, pode acessar rede wi-fi, não pode? Pode...". Então eu me questionei: "Por que preciso de um celular novo, se o meu tem tudo de que necessito?"

Observando as pessoas ao meu redor, eu percebia que a minoria dispensava seus celulares porque estes estragaram ou não tinham conserto; a maioria o fazia por status, ao ostentar para os amigos um aparelho caríssimo de última geração, ou por ter sido vítima de uma mistura de obsolescência perceptiva com obsolescência programada: "Oh, o sistema operacional do meu smartphone não permite que eu instale o aplicativo que está na moda, então devo trocá-lo". Com essas observações, decidi: "Eu não quero ser mais uma consumista manipulada pelo sistema — este sistema que, desculpe-me o palavreado, fode o meio-ambiente e a vida de milhões de pessoas  e tampouco um ser mesquinho, que vive para dizer que é melhor do que os outros só porque tem grana". Sabe qual é o problema? Quando digo para as pessoas que não vejo necessidade de comprar um celular novo, elas me olham com pena, como se eu fosse pobre, mas tão pobre, que estivesse disfarçando minha pobreza com um suposto ideal. Porque, no capitalismo, se você não consome, ou você é um pé-rapado, ou você é um avarento; ninguém enxerga essa atitude como conscientização e protesto.

E eu continuaria protestando, numa boa, mesmo que ninguém me entendesse. Bastaria para mim o fato de que estou fazendo a minha parte. Mas voltemos ao que foi dito no primeiro parágrafo, sobre as pressões externas e ao "traste indispensável" a um cidadão moderno que é um celular... Pois bem: assim como me vejo obrigada a ter um desses aparelhos, por uma questão de precaução e de algumas funções úteis que eles oferecem, venho me vendo obrigada a ter um celular novo. Por quê? Ora, porque hoje em dia tudo gira em torno da tecnologia e de redes sociais. Você até pode fugir disso — a menos que, como eu, seja um jovem estudante. Já passei por várias situações desesperadoras, em que professores pediram pesquisas para os vinte minutos seguintes e eu não tinha acesso fácil ao Google, ou em que fiquei por fora de longos debates sobre trabalhos ou projetos porque não tinha acesso a aplicativos de mensagens. Tenho me virado; porém, sei que, se eu for entrar numa universidade no ano que vem, precisarei dar um basta nessa espécie de exclusão digital na qual eu mesma me submeti. Mais uma vez, eu fui vencida.



"And now I'm deprived of my conscience"
[Truth, Seether]

10 comentários:

  1. Boa tarde querida Lari...
    sempre que leio sobre tal assunto e ainda mais vindo de vc
    sei que o que falas é muito real tanto que muitos versos já fiz sobre o assunto..
    lembro-me de anos e anos atrás..
    amigos com seus celulares, o primeiro com camera como vc disse..
    e olha no que está hj..
    achei legal a propaganda da vivo que tem passado na tv.. sobre celular, usar bem faz bem.. mostrando crianças pulando corda e outra da mesma idade lá no celular..
    outro dia mesmo.. fui dar um olá a uma amiga que falava.. e ela sequer pediu como eu estava..
    já veio logo dizendo- Comprou um celular..
    é uma piada o que se tem de ouvir.. passo de bicho do mato mas não sou controlado como todos que vejo a minha volta....
    bela abordagem.. bjs e feliz sempre

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  2. Tudo verdade. Eu sou uma pessoa muito consumista (é verdade), do tipo que se tivesse dinheiro para comprar o último celular compraria. Só que ai que tá, eu não tenho. Quem tem dinheiro são os meus pais. Eu até ganho uma mesada de vez em quando, mas eu tenho outras coisas mais importantes para utilizá-las (tô juntando pra pagar uma parte do intercâmbio que quero fazer, mas uma vez ou outra tiro um pouco pra comprar algum livro) e assim eu aprendi a servir menos essa sociedade capitalista. Meu celular é bom. Faz ligação, tira fotos (não é na melhor qualidade), tem acesso a aplicativos, posso escutar música e tem joguinhos. Mas já tenho ele há 2 anos e não é mais o de última geração. Apesar de querer trocar muito por um novo eu sei quais são as minhas prioridades e não vou fazer isso nem tão cedo assim. Tô aprendendo e deixando de ser tão consumista (até porquê a situação financeira desse país não nos permite isso).
    {drama queen}

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  3. Gostei bastante dos teus escritos. ♥

    http://misslennox.blogspot.com.br/

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  4. Pessoas inteligentes se adaptam as necessidades dos tempos,para serem mais ágeis e facilitar suas vidas. As vezes podemos ser contraditórios,mas com novas tecnologias viver exige contradição e adaptação,não tem outro jeito. Obrigado pela visita, tua sensibilidade me põe alegre.
    Obrigado e boa semana.
    " Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões." - Walt Whitman

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  5. Nao tem jeito! O negocio e se adaptar ao mundo moderno e investir em tecnologia. Eu tbm ja tive uns celulares bagaceiras que cumpriam seu papel mas tbm tive que comprar um mais moderninho :)

    Não sei se você lembra que eu tinha 2 blogs, o 'Meu amor paquistanês' e o 'Lenços e adereços'. Eu acabei deletando tudo, dei um tempo disso tudo e agora resolvi voltar com um novo blog que é uma mistura dos 2 antigos. O blog tá tão legal que tem até sorteio em dose dupla rolando por lá :) Que tal dar uma passadinha lá e se inscrever no sorteio? Veja como é fácil participar: http://colorindoavidaa.com/index.php/2015/08/05/oba-sorteio/

    Tem tbm a pagina do blog: https://www.facebook.com/Colorindoavidablog
    Bjiimm

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  6. Tomei "pavor" de celulares quando miúda ao ver várias pessoas em minha volta ligadas a eles e não se comunicando entre si.
    É tão comum ver pessoas conectadas que ao mesmo tempo estão tão desconectadas ao que está em acontecer a sua volta...

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  7. Adorei a crônica. Mas confesso que não consigo ver meu celular como um traste kkkk
    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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  8. Sua relação com o celular me lembra a minha. Em determinado momento da faculdade, fui vencido pela tecnologia e tive que comprar um "android" por causa do tal do "whats app". Mesmo assim, não considero esse tipo de tecnologia indispensável, pois, vivi muito bem meus dois anos iniciais de faculdade sem internet no celular.

    O ser humano é um animal extremamente adaptável, então, se hoje vivemos com a ilusão de que não vivemos sem celular "android", amanhã viveremos com outra falsa necessidade. Acho que é essa a expressão que procuro: o celular é uma falsa necessidade criada pelo consumismo.

    Beijos Lari

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  9. Caramba, Lari!! Somos mais parecidas do que eu imaginava. Sério, me encontro nas mesmas circunstâncias que você. Há muita gente ao meu redor me dizendo o quanto eu preciso de um celular novo (e consequentemente mais avançado) e eu vou sempre retorquindo com meus ideais sobre o quanto o ser humano se torna fútil e dependente desse sistema econômico capitalista. Mas, infelizmente, quanto mais o tempo passa (e quanto mais a humanidade "evolui" digitalmente) eu me deparo com obstáculos simples, que nem sequer seriam obstáculos caso eu me encontrasse inclusa nesse meio digital.
    Mesmo assim, não se declare vencida: Ter um objeto igual aos outros não significa pensar feito eles! Ao menos é o que eu acredito...
    E se te consola, esse novo celular que você terá, daqui a pouco tempo estará ultrapassado e logo você voltará a argumentar sobre o porquê de não precisar de um um outro celular novo. ;)

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