Alma ignorante

— Por que você me ignora? Heim? Heim? HEIM!?
— Desculpe-me, falou comigo?
— Perguntei-lhe por que você me ignora. Por que me ignora com tanta veemência? Com tanto desdém disfarçado de distração? Por que são sempre os outros, os outros e os outros, e nunca sou eu?
— Como assim? Não estou ignorando-a.
— É claro que está.
— Não estou, não! Se estava antes, é porque não a vi nem ouvi. Sou muito distraída.
— Acabei de dizer que sua suposta distração não passa de um disfarce.
— Distraio-me tão facilmente que não ouvi tal afirmação.
— Você continua disfarçando.
— Disfarçando o quê, afinal?
— Sua arrogância.
— O quê? Você está dizendo...
— Que você é arrogante.
— Eu não sou arrogante! Sou até que muito humilde...
— Isso soou contraditório. Os verdadeiros humildes não ressaltam a própria humildade; logo, você é arrogante.
— Você está me ofendendo.
— Por quê? Por dizer a verdade?
— Suas palavras, verdadeiras ou não, me machucam.
— Seu desdém as ensinou a provocar dor.
— Por que você insiste que eu a desdenho?
— Por que você insiste em ignorar o fato de que me ignora?
— A propósito, quem é você?
— Viu? Você ignora até quem eu sou. Ou finge que não me conhece, o que também é uma falta grave...
— Não finjo! Realmente não a conheço! Você pode me dizer quem é?
— Não. Descubra você mesma.
— Ora, por quê?
— Para que nessa busca você se conheça melhor.
— Tanto trabalho só para que eu pare de ignorá-la?
— Tanto trabalho só para que você pare de se ignorar. Não é óbvio? Ouça a si própria. Enxergue-se. Respeite-se.

10 comentários:

  1. Somente quando perdemos o controle é que somos enfim apresentados a nós mesmos.
    GK

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  2. Incrível, Larissa. Seus posts sempre me surpreendem :)

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  3. Excelente dialogo, certa vez escrevi um texto com um proposito parecido... E ao ler seu texto cheguei a triste conclusão de que por vezes nós ignoramos a nós mesmos e no meu caso, tenho o costume de ignorar sempre.

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  4. Realmente ignoramos muitas vezes a nós mesmos, infelizmente.
    Palavras suas que realmente surpreendem Larissa. Adorei!
    Beijos querida.

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  5. Boa tarde Lari..
    muito parecido com os meus diálogos internos..
    dá cada quebra pau até chegar o momento do pera aii.. to falando o que srrs
    mas é bom desabafar, se questionar...
    só assim a alma vai se equilibrando... bjs

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  6. Seu texto ficou brilhante.
    Acho que, na verdade, eu me sinto arrogante por me escutar demais, ou só me escutar.
    Pensei um pouco sobre isso quando lia.

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  7. Aaaaaah que fim maravilhoso <3 No começo eu achava que eram, de fato, duas pessoas conversando. O que é engraçado, porque inevitavelmente eu me identifiquei com a mais distraída do diálogo. Isso significa que sim, preciso ouvir o conselho de ouvir mais, e de me respeitar mais (tenho feito muito o famoso papel de trouxa ultimamente).

    Beijos!
    Burlesque Suicide

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  8. As conclusões dos seus textos sempre definem exatamente a ideia central. Você não se perde no fim, muita gente tem dificuldade de terminar, por isso gosto de vir aqui.
    Começamos a ler e temos uma ideia sobre "o que ela quer dizer?" E o fim sempre se encaixa ;)

    Beijo grande Lari

    http://karinapinheiro.com.br/bicho-papao/

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  9. Muito criativa a forma com que construiu o texto, Lari. Eu simplesmente adoro esses embates psicológicos, pois somos todo esse paradoxo existencial e complexo.

    Beijos

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