Relógio de ponteiros

Quando abri os olhos, minha cabeça doía um pouco. Eu havia dormido por muito tempo, mas pelo menos as energias gastas na festa da noite anterior pareciam repostas... Levantei-me, um pouco zonza, endireitei-me, espreguicei-me. Encaminhei-me, então, para a cozinha, notando que as luzes do corredor estavam acesas. Luzes acesas, de dia! Meu pai não teria gostado disso. Notei também que a república estava silenciosa, mesmo para um domingo, mas, ao chegar à cozinha, certifiquei-me de que não era a única na casa: Sara, Bela, Anara, Melinda... estavam todas ali. Num primeiro momento ignorei os vestígios — alguns discretos, outros escancarados — que indicavam que algo estava errado, e sussurrando um “Bom dia!” (mais para mim mesma do que para as outras), prossegui rumo ao filtro de água.

O filtro ficava ao lado da janela, de modo que, percebendo que algumas estrelas pontilhavam o céu que ainda era um breu, comentei:

— Caramba, e eu achando que tinha dormido muito... Ainda nem amanheceu!

Olhei na direção das meninas. Bela, sentada à mesa, olhava para baixo com olhos de quem tinha chorado havia pouco; ao seu lado estava Anara, de pé, acariciando seu cabelo. Melinda, de braços cruzados num canto, parecia estar com a cabeça em outro mundo. Foi Sara quem disse:

— Laura, já amanheceu faz tempo... São duas da tarde.

Senti um arrepio estranho percorrer-me a espinha e um negócio no estômago. O ponteiro pequeno do relógio sobre a geladeira apontava para o dois, e, no visor de um celular sobre a mesa, notei: de fato eram 14 horas e pouco. O que aquilo significava? Era sério? Parecia sério. Tentei encontrar respostas na desordem que se tornou meus pensamentos, mas ela só expelia perguntas:

— Mas... como assim? O céu está escuro, ainda é noite, não é? O que é que está acontecendo? Por que vocês não me acordaram antes?

— Acordamos faz pouco tempo também, Laura... Com o barulho.

— Barulho? Que barulho?

Sara arregalou os olhos e pareceu realmente perplexa, como se o fato de eu não ter ouvido um ruído qualquer fosse mais extraordinário do que o fato de que, às duas da tarde, o céu estava como o de duas da madrugada.

— Você... Você não ouviu?

— Não! Mas que droga, do que você está falando?

— Foi assustador, Laura! Parecia que algo imenso estava sendo rasgado... Juro que eu não consigo entender como você não ouviu...

— Se eu tivesse ouvido, teria acordado. De qualquer forma, não fui a única, não é? Se todos tivessem escutado o tal “rasgo fenomenal”, penso que estaríamos ouvindo, agora, uma certa euforia vinda do lado de fora. Qual é, você não conhece a vizinha da frente? Aquela mulher já faz um escarcéu danado quando um gato pula no telhado e ela pensa que estão tentando roubar a casa dela, então imagine o que não esgoelaria se ouvisse... sei lá, o que parece a descrição do som de um caça, amplificado várias vezes, passando por sua cabeça?

— Estão todos apavorados — disse Melinda, descruzando os braços para colocar as mãos nos bolsos da blusa de moletom e finalmente saindo de seu devaneio. — Estão todos apavorados demais para fazer qualquer coisa além de esperar.

— Esperar? Esperar o quê? — não contive um riso nervoso e sarcástico.

— Você não percebe, Laura? — foi a voz de Bela, que erguia para mim o rosto meio inchado e os olhos vermelhos — Está acabando

— As pessoas só gritam e se desesperam quando têm a opção de fugir daquilo que temem, ou quando sabem que podem contar com o socorro de alguém. Neste caso, não há para onde fugir nem a quem recorrer. Por mais hilário que pareça, estamos todos sozinhos. Estamos esperando — concluiu Sara.

Eu não conseguia imaginar um medo que tomasse a humanidade e não viesse acompanhado pelo caos, mas eu também não teria imaginado, jamais, que meu fim fosse se dar junto com o fim do mundo. Afinal, Bela estava certa: tudo só podia estar acabando.

Peguei a chave que estava sobre a mesa, abri a porta dos fundos e saí para o quintal. Eu queria ter um panorama melhor do céu. Eu queria que as estrelas me dessem respostas. Mas as estrelas, percebi, estavam caindo... Eram muitas, muitas estrelas cadentes... E elas pareciam cada vez maiores, cada vez mais próximas...

Estavam vindo em minha direção. Alguma iria me atingir.

Acordei antes do impacto, suada e sedenta. Água, eu precisava de água. Assim que meus batimentos cardíacos voltaram ao seu ritmo normal e minhas articulações pareceram menos rígidas, levantei-me e dirigi-me à cozinha. As luzes dos corredores estavam acesas. Estranho, não costumávamos dormir com luzes acesas ali na república; toda economia era bem-vinda.

A luz da cozinha também estava acesa e, em torno da mesa: Sara, Bela, Anara, Melinda... todas ali. Ainda bastante atormentada pelas cenas do pesadelo recente ignorei os vestígios — alguns discretos, outros escancarados — que indicavam que tudo estava na mais perfeita normalidade. Minha atenção se prendia ao relógio acima da geladeira: o ponteiro menor apontava para o dois.

— Ai, Caramba, já são duas horas!

Ãh, são — confirmou Anara. Notei que estava bastante maquiada.

Como eu corria os olhos de uma para outra e estava um pouco ofegante, parecendo um tanto quanto desequilibrada, Sara questionou-me:

— Quanto tempo você ficou estudando?

Por não conseguir encaixar a pergunta no contexto e, portanto, considerá-la absurda, não respondi.

— Pegue leve nos estudos, garota, — continuou — você está ficando bitolada demais com essa prova do fim do mês que te impede de curtir uma balada com a gente. Sábado que vem juro que te levo para A Dançarina nem que for arrastada. Um pouco de diversão vai te fazer bem.

Entre bocejos, desejos de boa noite e uma piadinha sem-graça qualquer, as meninas, uma a uma, se retiraram para seus quartos. Eu fiquei ali, olhando para o relógio de ponteiros acima da geladeira. Eram duas horas. Eram duas horas da madrugada.

8 comentários:

  1. Caramba, Lari, outro conto incrível, hein? Esse aqui vou marcar até nos favoritos
    Fiquei apreensivo nas partes que as amigas falavam que estavam só esperando, senti uma aura de suspense muito bacana. Eu até veria um sonho desse como um sinal, de que algo ia acontecer com essas garotas na festa, o fim pra elas (viajei). Gosto das suas narrativas, sempre me sinto preso pelo que você escreve :)

    enquantotipico.blogspot.com

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  2. Cara, ameeeei! ♥ Legal pra caramba! Adoro a forma como você combina as palavras. Gostei pra caramba da ideia, de uma garota sonhando com o fim do mundo. Eu me assustei com ela, em todos os momentos, e senti alívio também. Não me importaria se fosse uma história com um monte de capítulos. ♥
    Gostei muito das personagens. Gostaria mesmo de vê-las mais vezes.

    agataluz.blogspot.com

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  3. Parei tudo o que estava fazendo para ler esse texto. Confesso que fiquei nervosa, me arrepiei toda e quando percebi que era tudo um sonho, fiquei até aliviada. Meu Deus, que dom é esse que você tem de prender a gente de um jeito tão magnífico enquanto lemos?

    Está de parabéns,
    Abraços.

    blogcontosdebranca.blogspot.com

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  4. Nossa, eu já estava nervosa aqui, até ver que tudo era um sonho haha, Você realmente tem um dom de nos prender até o final em seus textos né? Parabéns!

    Beijos
    Blabalizando | No Instagram

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  5. Ai para, eu pensei que teria um final mirabolante. Como assim pequena Larissa? hahaha.
    Mas gostei de todo o suspense e como cada vez você está melhor nas palavras, muito lindo isso. <3

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    1. Hahaha! Agradeço pelo elogio e peço desculpas pelo final que talvez não tenha sido dos mais empolgantes que escrevi... O lance é: a ideia deste texto veio, de fato, de um sonho que tive. Claro que nele não havia a república e a garotas, nem mesmo havia a chuva de meteoritos do final; mas havia a essência, que é, no Brasil, na ausência de um eclipse solar, estar um breu de noite em plenas duas horas da tarde!

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  6. Você sabe que sou sua fã né?!
    esse conto de suspense me deixou sedenta em ler mais. Adorei a forma como você narrou os pesadelos, as sensações das meninas. Adorei a parte das estrelas caindo, foi o que eu mais gostei.
    bju Larissa

    http://karinapinheiro.com.br/sara/

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