O futuro é o monstro no meu armário

Stand By Me é um clássico da Sessão da Tarde ao qual eu ainda não havia assistido, e estava na minha pasta de filmes baixados já tinha algum tempo... Daí, no último sábado, enquanto boa parte da juventude da minha cidade estava na rua curtindo o Carnaval ― sambando, bebendo, zoando, se pegando... a graça que costumam atribuir à coisa toda ―, eu me joguei no sofá e fui conferi-lo.

Tudo bem, tudo bem: isto aqui não será uma resenha. Eu morro de preguiça de escrever resenhas. Vou precisar, entretanto, escrever brevemente sobre o filme para desenvolver a reflexão à qual ele me levou. Então: o enredo se desenrola em torno de um grupo de 4 pré-adolescentes, muito amigos — com direito a reuniões na casa da árvore e tudo , que resolvem sair numa busca pelo corpo de um garoto desaparecido. Nesse percurso, vamos entrando em contato com a essência de cada um deles, com o que fez com que cada um fosse o que é. Fora a parte individual, é óbvio: temos contato com a essência da amizade deles.

Você pode estar desenhando em mente uma coisa meio “Amigos para sempre é o que nós iremos ser”, mas a tal da reflexão que o filme me propôs foge bastante dessa utopia de “para sempre”. Numa das últimas cenas do longa ― sim, vai rolar um spoiler basiquete aqui, então, se você ainda não assistiu a Stand By Me, mesmo que ele seja um clássico da Sessão da Tarde, do ano de 86, sugiro que pule para o próximo parágrafo―, o protagonista, bem mais velho, admite que com o tempo foi perdendo o contato com aqueles tão bons amigos que tinha aos 12 anos. Ele nos conta que, já nos anos seguintes à aventura que é o embasamento do enredo, dois dos membros da turma passaram a ser para ele apenas mais dois rostos no corredor da escola.

Voilá. Chegamos onde eu queria chegar: os rostos amigos que viram rostos conhecidos e, com o passar dos anos, rostos vagamente familiares. Desse jeito mesmo, numa ordem invertida; ainda assim, uma ordem natural. É lindo dizer que amizades duram para sempre, mas não é sincero. Nem todas duram. Como disse o personagem Gordie Lachance: “Amigos entram e saem da sua vida, como garçons num restaurante”. Não quero insinuar que amizades são dispensáveis, porque elas não são. Só que... Caramba! Pessoas mudam! Tudo muda e o mundo cospe isso na nossa cara o tempo todo. Então, aquela pessoa super gente fina a quem você confiava segredos, com quem você dividia momentos, tristezas e risadas, aquela pessoa a quem você podia dar o título de “melhor amigo(a)” tranquilamente e se orgulhar disso... bem, aquela pessoa pode estar passando ao seu lado três ou quatro anos mais tarde e nem olhar para você.

Tenho uma melhor amiga há uns 15 anos. Tenho uma turma maravilhosa. Tenho amigos com os quais dou um jeito de manter contato mesmo com a distância, amigos com os quais esbarro na rua depois de sabe-se lá quantos anos e ainda tenho assunto (nostalgia da infância, geralmente) e amigos que considero demais mesmo sem conhecê-los pessoalmente. Tenho bons colegas, também. E, apesar da massa de antigos amigos que viraram rostos no corredor — ou nem isso , não tenho, realmente, do que reclamar. A vida segue seu ciclo.

... A vida segue seu ciclo e é isso que me preocupa. 

Estou no último ano do Ensino Médio. Ao mesmo tempo em que não vejo a hora de deslocar meu corpo da fileira do meio da minha sala de aula para uma universidade bacana, tenho meus receios em relação ao fim desta fase. O futuro me assombra, mesmo que meu professor de Filosofia tenha me ensinado que ele não existe. É como se o futuro fosse o monstro no meu armário... E os amigos que deixarei de ter, se o monstro deixar de ser fruto da minha imaginação para se tornar algo concreto e palpável, não serão nem rostos no corredor: serão vagos borrões do passado. 

Se eu pudesse, agarraria-me ao presente para não soltar nunca mais. Mas, por todos os carpe diem(s) do mundo: meu presente vai virar passado e o futuro pode virar meu presente. E eu? Eu tenho que me virar para enfiar esses conceitos todos na minha cabeça.


6 comentários:

  1. Nossa Lari, seu texto me tocou profundamente.
    "Conta Comigo" ou "Stand by me" não marcou minha infância, mas sempre quis assistir e, por motivos que não me recordo, acabei deixando de lado, até que o ano passado eu resolvi ver, sempre me falavam desse filme e era uma desonra, na minha concepção, um cinéfilo não ter assistido ainda rs Eu assisti e devo dizer que praticamente as mesmas reflexões que ele te despertou, também habitaram minha mente por um bom tempo.
    E me lembro bem da frase de um dos garotos, já adulto, no fim do filme: "Nunca mais tive amigos, como os que tive aos 12 anos".
    Eu sempre tive poucos amigos e, embora tenhamos raros contatos por causa do curso da vida, sempre quando os vejo a intimidade e a intensidade permanecem intactas, acho que sou sortudo nesse aspecto, de ter poucas, porém verdadeiras, amizades e indiferentes ao tempo. Nunca serão rostos estranhos para mim.
    Seu professor de Filosofia está certo, assim como o Renato Russo quando diz que não há amanhã. Aproveite o máximo que você puder com seus amigos de hoje, eles te farão muito falta depois, porém, ainda serão parte da sua vida e, se realmente for uma amizade genuína, nunca te esquecerão ;-)

    Beijos

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  2. Concordo completamente e sou um claro exemplo disto. Há dois anos eu fazia parte do que chamávamos de "o quarteto", sim, dizíamos isso porque éramos quatro. kkkkkkk; resumindo hoje este quarteto se transformou em uma dupla, porque os outros dois nem nos cumprimentam na rua. Isso é bem triste, mas é a realidade natural das coisas,.

    http://acessopermitidoblog.blogspot.com.br/

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  3. Olá Lari *.* Sempre refletindo sobre questões perigosas. Eu não consigo me apegar às pessoas, não sei o motivo, mas acho que temos 'amigos' que precisamos no momento que precisamos, talvez este seja o motivo de não nos prendermos ao 'para sempre' como tu citou. Prefiro assim, as experiências precisam ser diferentes, com pessoas, ambientes e situações diferentes.

    Bom, me prolonguei, mas acho que é isso.
    Fique bem querida :D

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  4. Queridíssima Lari, seus últimos textos/posts estão representando tanto do que eu mesma venho sentindo... É impressionante. Olha, no ano passado, deixei muitos amigos pra trás. Hoje, não passam de quase estranhos para mim... O que é uma droga. Eu não conhecia esse filme, fiquei com vontade de assisti-lo.
    O fato é que esse ano eu vou pro segundo ano do ensino médio. Estou ciente de que os amigos que eu fiz no ano passado irão se afastar de mim num futuro próximo (talvez se afastem minimamente quando acabar o ensino médio, mas se afastarão, mesmo que só um pouquinho, tenho certeza)... "O futuro me assombra, mesmo que meu professor de Filosofia tenha me ensinado que ele não existe." Mas a vida segue seu curso, não é? As coisas são como devem ser... Como nós fazemos com que elas sejam...
    Congelar o presente até que não seria má ideia, mas, sinceramente? Eu sei que só poderei me tornar a pessoa que desejo ser se eu seguir em frente, deixando o passado (no caso, meu atual presente) para trás. Mesmo que a saudade me doa no peito, é o que deve ser feito.
    Postagem genial, como sempre.
    Ah, eu assisti um vídeo e lembrei de você, Lari! Não sei exatamente o porquê, mas lembrei. Então, assista: https://www.youtube.com/watch?v=k-EIJzB1MHE
    Beijos ♥

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    1. Muito obrigada!

      Acabei de assistir ao vídeo e, caramba, ele é mesmo muito bom... Eu tenho um pensamento parecido sobre o sentido da minha vida, mas a forma como o Neil colocou foi demais!

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  5. Nunca assisti esse filme, mas confesso que fiquei curiosa :b O futuro também me assombra um pouco, se quer saber. Eu fico me perguntando "O que vai ser de mim? Quais amigos vão continuar e quais novos amigos aparecerão?" Não sei se vou conseguir me expressar muito bem, mas posso dizer que muitos "amigos para sempre", cujo se diziam assim para mim, já não falam mais comigo, nem olham na minha cara e tudo mais. Mas tenho bons amigos, da qual espero que possa sempre contar. Como disse a Taís aí em cima, mesmo que a saudade nos doa no peito, deixar o passado para trás é o que deve ser feito.
    Beijos e tudo de bom sempre! || Unlocked Land ❤

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