Os outros devem ter visto e ouvido

O ônibus parou. Abri os olhos e olhei para a porta, esperando que ela também se abrisse e alguém entrasse. Claro que ninguém entrou: estávamos parados no meio do nada. No asfalto quente de uma rodovia deserta, um pasto seco à esquerda e uma enorme plantação de milho à direita.

Depois de alguns instantes, retirei um dos fones do ouvido, na intenção de, através do burburinho dos outros — cerca de dez — passageiros, descobrir o que estava acontecendo. Mas não havia burburinho nenhum, apenas o som do motor ligado. Dali, do penúltimo banco, era difícil dizer com certeza, mas aparentemente estavam todos dormindo.

Retirei também o outro fone. Arcando-me para o banco vazio ao meu lado, espichei o pescoço para observar o corredor e, assim, ter uma visão melhor do para-brisa adiante. Mas tudo estava tão sossegado...! A noite ia caindo, o ônibus estava parado, todos pareciam dormir e tudo estava no mais perfeito sossego.

Resolvi esperar. Não era nada demais, era? Quero dizer, é provável que qualquer outra pessoa no meu lugar fosse tentar entender o que estava acontecendo, mas o problema é que sempre fui muito na minha. Tímida, um tanto quanto indiferente à vida alheia, acomodada. Eu só conseguia pensar: “Se não vi nada, se não ouvi nada, de fato não há nada. Zero motivos para preocupação”.

Recoloquei os fones no ouvido para, dali a três minutos, retirá-los de novo. Não dava mais para fingir que eu não estava apreensiva. Eu estava apreensiva pra caramba. Levantei-me, então, deixando a mochila que antes estava no meu colo sobre o acento de que eu acabara de sair. Enrolei os fones no celular, coloquei este no bolso e respirei fundo. Já disse que eu sou tímida. Eu precisava respirar fundo para atravessar o corredor e ir falar com o motorista — invisível para mim dali do fundo porque, por trás do seu banco, havia um tapão estreito (e cheio de avisos do tipo “Não fume” ou “Como usar as saídas de emergência”) que ia do teto até o piso metálico.

A três passos do meu destino, distingui uma coisa branca no chão. Um jaleco. Pensei em simplesmente contorná-lo, mas, apesar da situação na qual eu me encontrava e da minha já ressaltada personalidade, achei que não custaria nada recolhê-lo e deixá-lo no banco do dono adormecido. Foi justamente o que fiz e, quando o fiz, notei algo profundamente perturbador. O moço louro sentado junto à janela não estava adormecido. Na verdade... na verdade ele parecia morto. Inerte, o pescoço jogado para trás, os olhos vidrados e a boca aberta num grito silenciado. Sua expressão era de extremo pavor.

Eu gosto de imaginar que, apesar de detestar chamar a atenção, mesmo que minimamente, para a minha pessoa, se o bom senso estivesse comigo eu teria tomado o pulso do homem para conferir se ele estava realmente morto e, fosse qual fosse a descoberta, eu pediria socorro. Mas não era o caso. De pé no início do corredor, com o coração acelerado e sentindo um tremor começar das extremidades dos meus membros e seguir para o resto do corpo, eu só conseguia pensar: "Se você levantar os olhos será pior".

Acontece que não resisti. Virando-me para trás, levantei o olhar. Dali da frente, com uma visão ampla do resto dos passageiros, eu confirmei minha suspeita: os outros não estavam dormindo, como eu imaginara inicialmente. Todos pareciam bonecos cujas faces foram moldadas pelo medo. Todos pareciam mortos.

Meu coração, antes acelerado, agora batia com força no peito, como se, num gesto de compaixão, quisesse arrebentá-lo para me privar logo daquele pesadelo. Talvez eu devesse ter gritado, o que seria uma reação adequada para o momento... Contudo, depois de tantos anos controlando reações a fim de não me destacar entre os grupos, eu apenas sentia o grito na garganta sem poder fazer nada além de mantê-lo ali. Além do mais... é estranho confessar, mas eu temia que, se eu gritasse, todos aqueles seres inanimados despertassem — não como eram antes, mas como seres hostis que tentariam me ferir naquele espaço que, se antes eu já achava pequeno, agora me parecia claustrofóbico.

Trêmula e cambaleante, eu caminhei, de costas, os passos que faltavam entre mim e o motorista. Este se encontrava na mesma condição dos outros passageiros. Virei-me e olhei, outra vez, para o para-brisa, esperando distinguir algo que eu não havia visto quando estava no fundo. E distingui: diante do ônibus havia uma mancha arroxeada que tomava boa parte do asfalto. Na verdade, tomava o asfalto, a intervalos irregulares, até onde minha vista alcançava.

Senti o chão tremer rapidamente com um barulho forte. Era o motor parando de vez. Sobressaltei-me, acreditando, por um momento, que o motorista desligara o ônibus (e sem saber se isso seria, àquela altura, um sinal bom ou ruim). Não desligara: o homem permanecia inerte. Fora a gasolina que havia acabado.

Ótimo.

Lembrei-me de que mantinha o celular no bolso, mas eu não tinha esperança de que ele pudesse me ser útil naquela situação. Isso porque, assim como eu havia pressentido, pouco tempo antes, que não deveria encarar o restante dos passageiros porque algo muito, muito ruim havia acontecido, agora eu pressentia que meu celular estava fora de área. É o tipo de coisa que acontece nos filmes de terror, não é? O tipo de coisa que acontece nos pesadelos.

E eu estava certa. A droga do celular estava não apenas sem área, mas também sem bateria. 

Eu não tinha coragem de me aproximar de todos aqueles supostos defuntos que ocupavam o ônibus, quanto mais para procurar por celulares em seus bolsos. Tentei abrir a porta do veículo e sair, primeiro apertando o botão junto do painel e depois a empurrando com força; de nenhum dos modos ela sequer se mexeu. Depois de pensar um pouco, segui até o final do ônibus e tentei abrir algumas das janelas que funcionavam como saídas de emergência, mas eu era fraca demais. Eu não conseguia arrebentar a trave de segurança.

A noite já estava escura e a rodovia continuava incrivelmente deserta. Sentei-me no meu lugar, deixando minha mochila no banco vazio à direita e me encolhendo de modo a abraçar meus joelhos. Senti algumas lágrimas escorrendo pelo meu rosto enquanto me lembrava de uma vez que minha mãe me disse que, desligada do mundo do jeito que eu era, era perigoso que alguma coisa grave acontecesse ao meu redor e eu só me desse conta quando já fosse tarde demais. Era o caso. Enquanto eu estava com os fones, com os olhos fechados e dentro do meu devaneio, totalmente alienada, algo havia feito o ônibus parar. Eu não vi o que era, eu não ouvi o que era. Os outros devem ter visto e ouvido.

Com as lágrimas tomando todo o meu rosto, eu só não conseguia chegar a uma conclusão: dado os fatos, não ter visto nem ouvido nada fora sorte ou azar?

10 comentários:

  1. Esse texto, mexeu comigo! Sério, muitos pensamentos me veio a mente. Você escreve muito, muito bem.
    Caramba, sigo seu blog a um tempinho e está ficando cada vez melhor rs.

    Beijos, Ariane

    www.diariodostreze.blogspot.com <<< Ta rolando um sorteio lá, se quiser participar, fique a vontade!

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  2. Lari, sua escrita é realmente impecável! Este conto está sensacional! Eu senti meus batimentos cardíacos aumentarem enquanto lia. Foi como se eu estivesse lá, no ônibus, no lugar da personagem... Até porque minha mãe sempre diz que sou desligada, e meus fones de ouvido sempre fazem com que eu entre em um mundo só meu. Eu poderia, perfeitamente, estar no lugar dela.
    Eu arrisco dizer que foi uma baita sorte ela não ter ouvido nem visto nada, ao menos dessa vez, ao menos neste conto... Mas, honestamente, não sei.

    Att, Taís K. ♥

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  3. Desde a primeira linha, imaginei todo o cenário do conto. Assim, foram se passando os parágrafos e minha imaginação me deixou completamente assustada e levemente confusa. Seu texto me tocou bastante, principalmente ao chegar na conclusão e querendo ou não, acabei me vendo na parte do "desligada do jeito que eu era", porque inevitavelmente eu sou.

    Creio que, tenha sido sorte dela não ouvir nem ver nada. Talvez fosse algo realmente apavorante e ela tivesse o mesmo fim do que os outros passageiros, então, prefiro não ver e acreditar numa imaginação infantil, do que ver algo realmente assustador bem diante dos meus olhos.

    Abraços, Pietra.

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  4. QUE TEXTO!
    Sempre me surpreendendo com suas palavras... muito bonitas
    Simplesmente amei.

    Thalia, bjs: palavras-antigas.blogspot.com

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  5. Perfeito *---------*
    Escreve um livro com contos ou algo do tipo e põe à venda que eu vou comprar! Adorei^^ me envolveu do início ao fim, como muitos contos famosos não conseguem fazer. In love por esse texto, apesar de ser sinistro.

    horadochoco.blogspot.com

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  6. Só não comento nada melhor, porque realmente não sei o que comentar. Lari, como já havia dito. Você é a melhor! A cada momento que passo sem ver se blog e do nada procuro ele, me impressiono mais.

    Beijos!

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  7. Não é de hoje que você sabe construir, com uma admirável eficiência, atmosferas claustrofóbicas de suspense, Lari. Isso é uma habilidade deveras rara. Adorei!! Não sei se você já assistiu, mas, pude perfeitamente recordar de trechos dos filmes "Olhos Famintos" e "Super 8" kkkk

    Beijão e você pensa em continuar a história?

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    1. Não conheço os títulos, mas acabei de anotá-los para conferir os filmes assim que puder (cara, não dispenso suas dicas, haha)!

      Não pretendo continuar esta história porque isto implicaria revelar um mistério que eu gostaria que cada um decifrasse por si mesmo, mas eu penso, sim, em escrever mais dentro do gênero — tenho várias ideias para outros enredos...

      No mais, muuuito obrigada!

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    2. Poxa vida, que bom que você guarda minhas dicas de filmes, Lari ^^ . Veja sim, principalmente "Super 8" ;-)

      Entendo a sua atitude, finais sugestivos sempre dão um charme maior, mas, não pude evitar de perguntar, porque, certamente, uma continuação seria lida com entusiasmo por mim ;-)

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  8. Uau! O texto foi fluindo numa facilidade, tal como respirar.
    Adorei!
    Beijo

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