Tal como um legado

— Olhe ali, menina! Tá vendo?

— Vendo o quê?

— A vala. Aquele buraco estreito e um pouco fundo que corta o pasto naquele ponto, rente à cerca, e segue até se perder no bosque lá adiante.

Aproximei-me do lugar que Dona Maria me indicava com o dedo. Segurando-me nas partes mais lisas do arame farpado, inclinei-me um pouco, a fim de ter uma visão melhor do pasto. Consegui meu intento: vislumbrei um rasgo na terra, enorme, pintado aqui e ali de restos de garrafa PET, latas enferrujadas, tocos de cigarro e outros pedaços de papel e plástico velhos.

— Tia, tá cheio de lixo isto aqui...

Dona Maria soltou um longo suspiro. Virei-me para encará-la, mas seu olhar parecia muito distante dali. Mesmo que ela não dissesse nada, eu podia sentir sua indignação pela sociedade consumista que, além de produzir mais detritos do que histórias, ainda profanava o que restava de natureza com eles.

Então ela se sentou numa parte mais baixa do barranco que delineava a estrada, defronte de onde eu estava. Voltou, enfim, o olhar para mim, e começou a falar:

— Se agora você tivesse uma enxada e resolvesse cavar um pouco a terra dessa vala, encontraria lixo. Depois, mais lixo. Depois mais e mais, outras camadas decompondo o que nos foi deixado nos últimos anos, tal como um legado, por quem passava por esta estrada. Mas a partir do momento em que você chegasse mais fundo, batendo com a enxada em outros séculos, encontraria suor. Sangue. Encontraria sofrimento e saudade, angústia e esperança. Encontraria o desejo por liberdade.

Confesso que eu não estava entendendo muita coisa. Saí, então, de perto da cerca que eu segurava para ir junto da outra, assentada no barranco em que Dona Maria se assentara também. Agachei-me por ali e, procurando me equilibrar com algum conforto nos calcanhares, pedi:

— Me conta, Dona Maria?

Ela fez um movimento de afirmação sutil com a cabeça grisalha e deu início à narração:

— Hoje você vê este cercado por todo lado, mas antigamente não era bem assim. A vala que eu te mostrei, por exemplo, era uma divisa. Uma delimitação de território que evitava que o gado saltasse para a parte vizinha. Cada lado desse pasto — ela fez um movimento amplo com mão, da esquerda para a direita — pertencia a um dono. Donos de terra que eram também donos de escravos, e foram os escravos que, sob sol ou sob chuva, cortaram toda essa distância com braçadas intermináveis.

Olhei novamente na direção do rasgo na terra. Depois disso nós duas fizemos silêncio por um bom tempo... Ela, absorta em sua filosofia própria e singela que, às vezes, como naquele dia, apresentava a mim através da voz enevoada do passado; eu, ouvindo um som longínquo de ferramentas batendo na terra e no cascalho... muitas delas... O som era quase compassado, e vez ou outra um grito de dor ou o som de um chicote cortando o ar vinham complementar a triste toada.

Eu já estava entrando numa espécie de transe quando um barulho no capim me sobressaltou. Era Dona Maria, levantando-se novamente. Levantei-me também, sentindo uma dor chata nos joelhos devido à posição em que eu ficara. Depois de esfregá-los um pouco, ao mesmo tempo em que me recuperava do devaneio sonoro de que eu acabara de sair, perguntei:

— Então é para isso que a vala está aí? Para ir enterrando o passado, geração após geração? Para encobrir a miséria humana em todas as suas facetas, até que fique cheia até a boca?

— Talvez, menina — respondeu Dona Maria. — Mas agora é melhor tornarmos a pegar a estrada. Continuar andando, seguir vivendo... Vivendo da melhor maneira que pudermos antes que a vala do tempo nos engula também.


6 comentários:

  1. Nossa lindo esse texto. Visitando nova. Beijos.

    http://alinesecretplace.blogspot.com.br/

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  2. Incrivelmente bem bolada essa história. Faz a gente refletir sobre esse mundo que vamos criando.

    http://mclumaluz.blogspot.com.br/

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  3. Que texto lindamente construído Lari, a imagem e a música ajudam a entrar no universo da história.

    Assim como ela, minha memória auditiva também foi despertada pelos fantasmas de um passado obscuro, um página vexatória na história da humanidade. Por isso que não devemos esconder essa tragédia em valas de lixo, precisamos que as novas gerações conheçam "a miséria humana em todas as suas facetas" e escrevam uma história bem diferente.

    Um dos melhores textos que li aqui, o que é uma grande qualidade, já que o nível das suas escritas é invariavelmente elevado.

    Beijos Lari

    O Mundo Em Cenas

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  4. Que crônica linda!
    Adorei a metáfora no final.
    Muito bom texto.
    Bju Lari


    http://karinapinheiro.com.br/coisas-da-vida/

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  5. Gente, esse texto foi uma graça! Eu realmente gostei mesmo, o trecho final foi ótimo, comparar o tempo que passa rápido com a vala que já teve "coisa boa" foi genial! <3
    Beijoos ♡ || Caramelos Encantados

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  6. Boa tarde Lari.. se para todo o lixo criado não só no físico mas no sentimental se abrisse uma vala ia faltar terra para cobrir as mesmas com seus passados cinzentos.. ainda vai chegar o dia que vamos presenciar as mudanças.. não será necessário ter valas mas sim jardins.. bjs

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