Novelos da linha de pensamento: Nem nas colinas

Primeiro novelo da linha de pensamento. Eu moro numa cidade pequena e de segunda a sexta meu bairro é bem quieto... Principalmente na parte da manhã. Assim, se numa terça acontece de eu acordar e não topar com ninguém em casa, é HILÁRIO o silêncio com o qual tenho que lidar! Minhas músicas e os latidos da Drica não contam porque eles só acentuam a afliçãozinha básica que eu sinto, justificável pela sensação de que um apocalipse passou despercebido por mim e que, se alguém mais sobreviveu, já fugiu para as colinas enquanto eu dormia. Então eu penso: “Ai, cacilds, e se for sério? E se eu resolver abrir a porta, sair para dar uma volta na rua e não encontrar ninguém? Nem nas colinas? Nunca mais???”. 

Segundo novelo da linha de pensamento. Mas então eu lembro que, se a sociedade tivesse se ferrado, não haveria motivos para ter sobrado só eu na Terra. Eu mal possuo a capacidade de acertar a quantidade de chocolate em pó que devo colocar no leite — danem-se o modo de preparo e o coeficiente de solubilidade: meu leite com chocolate sempre fica branco demais ou preto demais —, quem dirá possuir um dom especial que me fizesse merecer o posto de A Única Sobrevivente da Terra. Sem falar que sobreviver, num caso assim, seria mais um castigo do que qualquer outra coisa. Imagina? Vagar por aí que nem alma penada e o pior: sem ter ninguém para atormentar? Claro que, numa tentativa de encarar os fatos positivamente durante a minha “alonice nível fuck yeah”, eu consideraria a liberdade plena adquirida. Sem o lance do inferno que são os outros. Eu pensaria: “Beleza, agora posso ouvir Ride The Lightning no volume máximo que o home theater aguentar sem incomodar ninguém, posso andar pelada por aí sem nem lembrar da existência do pudor, e, se eu saquear um supermercado qualquer a fim de providenciar o que quero para o café da tarde, saio de lá mandando beijo para as câmeras e com a certeza de que não serei presa. Há!”. Contudo, a tentativa não duraria muito. Rousseau pode dizer o que for a respeito da sociedade estragar o homem, mas viver isolado por longos períodos não é lá muito saudável para a sanidade mental.

Terceiro novelo da linha de pensamento. Eu já discorri sobre o quanto é ilógico que a humanidade acabasse e eu fosse a única exceção dela, é verdade. Isso não significa, contudo, que eu tenha controle sobre minhas sensações ou que minhas ideias façam sentido: além das manhãs solitárias, houve um dia em que, ao andar rumo à escola, passei por um bom pedaço de caminho sem encontrar ninguém. NINGUÉM. Algo banal se não fosse cinco e meia da tarde, horário em que a maioria das pessoas está voltando para casa depois de seus compromissos. Como não deparei com gente, com carro, com cachorro e nem com mosquito, comecei, novamente, a ter pensamentos apocalípticos. Para deixar a cena mais tensa, o vento trazia de algum lugar o som daqueles sinos que as pessoas gostam de pendurar na varanda, que têm um som meio místico e tal. Era, até então, o único som que quebrava o silêncio além dos meus próprios passos, e eu já estava quase entrando numa espécie de transe quando um terceiro barulho me fez sobressaltar: um barulho que veio do meio do mato. O mato do terreno baldio, ao lado do qual eu estava passando. Numa manhã comum eu teria pensado em pássaros ou roedores, numa noite comum eu teria pensado em estupradores, sequestradores, uma galera fumando um baseado escondido e em tudo o que meu pai aponta como risco quando digo que quero ir a algum lugar sozinha. Mas estamos falando de uma tarde em que eu acreditava que toda a vida na Terra além da minha tinha se esvaído de uma hora para outra, então eu só podia pensar em: “Qual vai ser? Robôs, zumbis, alienígenas? Alguma barata mutante?”. E tudo o que eu tinha para me defender era um livro de Química. 


13 comentários:

  1. novelas legais beijos
    ja estou seguindo :)
    livro-azul.blogspot.com.br

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  2. Achei bem legais seus textos, você escreve muito bem :)

    Abraços, Crazy Things

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  3. Socorro Lari! Por onde eu começo? Olha, sinceramente eu não sei muito bem o que dizer, mas achei muito interessante esses seus *novelos da linha de pensamento* e eu, nunca no Brasil, conseguiria fazer isso. Sou atrapalhada demais para pôr meus pensamentos sobre um único assunto juntos assim.
    Gostei, gostei, interessante! haha
    Beijos, até mais!

    brancadenev3.blogspot.com

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  4. Às vezes, eu também tenho umas ideias loucas de apocalipse, tendo que sobreviver sozinho em um mundo infestado por zumbis como em The Walking Dead, que, aliás, peguei a 4ª Temporada para ver frenéticamente, contribuindo para a minha imaginação infindável de nerd kkkk

    Muito interessante o modo cômico que você retratou a solidão rs

    Beijos Lari

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    1. E, convenhamos: juntar imaginação com nerdice mais ideias apocalípticas é sempre meio perigoso, hahaha! (A propósito, acho que a quarta temporada de TWD foi a melhor).

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  5. Te entendo completamente... Não que eu tenha essas ideias apocalíticas de que toda a humanidade se extinguiu. Mas regularmente me deparo com esse silêncio total. Já até passei a chamar essa cidade onde eu moro de Cidade Fantasma, porque junta-se o calor infernal dela, a total falta de presença o humana e é possível se obter uma nítida visão do faroeste, daquelas cidades fantasmas...
    Muitas vezes já andei por boa parte da avenida principal sem que nada que demonstrasse alguma vida existente aparecesse..
    É mesmo intrigante...

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    1. É, é tipo muito intrigante...! Dá uma impressão de surrealidade, de um sonho do qual talvez eu nunca mais acorde, ou sei lá.

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  6. Já conhecia seu blog, mas acredito que nunca passei pra comentar: Bem, aqui esto eu pela primera vez. Então, OLÁAA o/ Acho seu espaço um amor! Me aguarde sempre por aqui, Lari (posso te chamar assim?) <3
    Mil beijos,
    Paloma
    http://wherefaithlives.blogspot.ca/

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    1. Seja bem vinda, minha linda! (Oh, rimou!) Pode me chamar de Lari, sim, e eu vou ficar muito feliz em te ver sempre por aqui ♥

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  7. EU AMO FICAR SOZINHA EM CASA, até porque é minha rotina, porém, ao mesmo tempo, EU ODEIO FICAR SOZINHA EM CASA - DE NOITE. Sei lá, as coisas parecem... sei lá, me sinto num filme de terror, okay? Ainda mais com um vizinho maluco que fica fazendo sons esquisitos, sério. Esse cara num ajuda ):

    Okay, admito, por mais que ficar sozinha seja agradável, ficar constantemente sozinha é um saco. E, nessa situação, você está citando a sinopse do filme Eu Sou a Lenda (só que sem os "zumbis", eu espero).
    Então, de fato. Viver rodeada de pessoas é um saco, e, ao mesmo tempo, bom (?).

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Tu tem muitos pensamentos apocalípticos, qué isso mulé.
    Acho que nosso medo da solidão faz com que pensemos nisso, nessa coisa de sermos o único ser humano na face da Terra.
    Mas, se eu fosse você, iria me preocupar mais em aprender golpes com o livro de química para momentos como esse, de andar sozinha na rua XD

    P.S: Sá música fez com que eu me imaginasse numa varanda de uma casa no interior dos USA, olhando pela janela. Como em alguns filmes onde a personagem do interior não tá feliz com a vida do interior e deseja ir pra cidade e coisa e tal. Mor enrendo XD

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  8. Ahauhaahuha meu Deus, juro que eu me vi nesse texto! Isso foi tão eu.... Imaginar esse tipo de coisa e ficar divagando a respeito...
    Ficou demais (como tudo o que você escreve), e terminar o post com Johnny Cash... Sou sua fã, Lari. ahauhauhahuah
    Beijão,
    Maiti.

    http://penny-lane-blog.blogspot.com.br/

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  9. Nossa, haha, vou tentar ser breve pois passaram infinitas coisas na minha mente sobre as três partes que tu partilhou, mas o que me fixou mesmo foi a solidão, o espaço, e o ar apocalíptico rs Eu odeio a solidão, sou o tipo de pessoa hiperativa que odeia silêncio, solidão, ausência de agito, claro, cada um leva da sua forma, mas me dá agonia até de pensar rs E ah, sou aquele nerd que aguarda pelos zumbis *.* rs

    xoxoxo

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  10. Oi Lari
    adoro seus comentários no meu blog, você entende tudo que eu tenho transmitir.
    Adorei esses novelos. Eu não suportaria a ideia de ter sido a única sobrevivente e também não me acho merecedora pra tal feito. Acho que nem seria uma bênção seria um castigo viver sozinho.
    bju

    http://karinapinheiro.com.br/o-que-nao-foi-entregue-e-nem-dito/

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