Sonho-pesadelo, sonho-desejo, sonho-metáfora

Mesmo que a primavera estivesse próxima, as noites eram gélidas.

Com o queixo tremendo um pouco, ergui a cabeça e olhei adiante: nem sinal dele. Impaciente, cruzei os braços e recostei um ombro no muro, aproveitando para trocar o peso do meu corpo de uma perna para outra. Os saltos me incomodavam. A bem da minha distração, tudo o que eu tinha para observar enquanto esperava era a dança vertiginosa das dezenas de pequenos insetos ao redor dos postes acesos. A rua estava estática, encharcada com a água da chuva recente, que também ficara empoçada aqui e ali.

As impressões que eu tinha do momento presente já estavam beirando a surrealidade, até que esta foi tomada pela apreensão quando ouvi passos se aproximando. Endireitei minha postura, passei rapidamente a mão pelo cabelo. Sentindo a garganta seca, tive um impulso de pigarrear, mas contentei-me em fazer silêncio para não perder nenhum ruído da noite. 

O som dos passos aumentou e, então, cessou. Onde ele estava? Oculto por detrás da esquina? Bom, a esquina estava apenas a uns 10 metros de mim... Eu deveria ir até lá e verificar?

Reunindo coragem, resolvi que sim. Coloquei minhas mãos no bolso do casaco, repuxando-o de modo que esfregasse minha pele e me desse uma breve sensação de conforto. Fui caminhando.

Os saltos batiam no concreto a intervalos regulares, descombinadamente com o desvairamento dos meus batimentos cardíacos. A contradição também se fazia no meu íntimo: a paixão irracional me impulsionando para frente enquanto o medo, a cada novo passo que eu dava, me questionava mais uma vez se eu tinha certeza do que estava fazendo.

Fechei com força as mãos dentro dos bolsos, meu coração ainda mais descontrolado — algo que eu não julgava possível — quando alcancei a esquina e o avistei. Estava de costas. Apesar dos meus sapatos favorecerem minha estatura, ele ainda era mais alto do que eu. O fato parecia acentuar a superioridade com que ele, vagarosamente, virou um pouco a cabeça para mim. Do seu perfil me veio a voz baixa, porém perfeitamente clara:

— Enfim. Você demorou.

Não pude evitar que o sangue subisse até meu rosto quando a injustiça me atingiu: havia pelo menos duas horas que eu estava ali.

Virando-se agora totalmente para mim, ergueu uma das sobrancelhas como se esperasse que eu dissesse algo.

— Eu... eu estava aqui o tempo todo! — justifiquei-me, hesitante — Eu estava esperando por você!

— Esse é o seu problema. Você espera demais.

Enquanto pronunciava cada palavra, balançava sutil e negativamente a cabeça. Seu olhar adquiriu um brilho estranho quando o desviou de mim para cima dos postes, para além das nuvens que deixavam opaco o céu noturno.

— Está quase amanhecendo — ele disse.

O tom que deu à frase poderia fazer com que ela pendesse entre o enigmático e o banal, mas eu, que o conhecia tão bem, sabia exatamente o que ele queria dizer.

Agarrei seu pulso, desesperada. Eu poderia puxá-lo para mim e beijá-lo naquele exato momento, mas não tinha certeza se ele me permitiria tal impulso e, tampouco, se entenderia a urgência do meu pedido no beijo. Controlando-me, lancei-lhe um olhar suplicante, e minha voz tremia — não de medo, nem de frio  quando pedi:

— Por favor... por favor...! Não faça isso comigo! Não me deixe outra vez!

Como eu praticamente me subjugava aos seus pés, senti sua expressão impassível se abalar um pouco. Ele estava sentindo pena? Estava considerando meu pedido?

Parecendo perturbado, curvou-se para perto de mim. Meus lábios permaneciam entreabertos, e era em direção a eles que ele guiava os seus. Contudo, num último instante, desviou-os. Levou-os para perto do meu ouvido, no qual sussurrou:

— Sinto muito. Você ainda não me tem.

Afastou-se bruscamente, virando-se e caminhando rápido na direção oposta. Não pude segui-lo. Não tinha forças para isso. Apenas o observei até que sumisse de vista e, então, da mesma forma como ele havia feito antes, desviei meu olhar para o alto.

O céu estava começando a ficar pálido. Estava começando a amanhecer.

Acordei. Um tanto abalada pelo sonho que me fugiu, mas, ainda assim, contente por todas as oportunidades que o novo dia me trazia. Na cama, olhando para o teto, eu traçava mil planos para conquistá-lo. O meu sonho.

Eu iria em seu encalço. Eu o teria. Eu o realizaria. Ah, sim...

Se é ruim ser subjugada por um sonho, por um desejo, pior ainda é sofrer nas mãos dos carrascos do arrependimento. Eu não podia deixar isso acontecer. Eu não podia esperar mais.

7 comentários:

  1. Adorei tanto o seu texto que depois fiquei com o coração apertado e a pele fria. Não tenho a menor capacidade em escrever coisas desse tipo, e MEU DEUS como você descreveu tão bem como é ter esses sonhos assim ou se sentir assim na realidade mesmo.
    http://viagem-a-terra-do-nunca.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  2. Uau. Romantico, visceral, bem escrito.
    Totalmente maravilhoso!
    Deu pra sentir a angustia durante a leitura.

    ResponderExcluir
  3. Boa tarde Lari.. descrição perfeita de tudo com uma riqueza de detalhes...
    vc sempre se supera nestes quesitos..
    o sonho mexe muito com a gente.. ainda sofremos pois a maioria deles tem desejos no meio... quando tivermos sonhos mais conscientes estaremos em equilibrio ou mais perto do mesmo.. bjs e até sempre

    ResponderExcluir
  4. Um texto muito belo e rico em detalhes Lari. Há sonhos tão reais que alguns dos seus resquícios ainda ecoam quando acordamos, parece que podemos revivê-los de alguma forma, que podemos tocar alguns fragmentos deles... O amor é o maior dos sonhos, creio eu.

    Beijos

    ResponderExcluir
  5. Bem escrito.Adorei!. Eu criei um IG de livros no instagram @infinito_literario vc podia dar um olhadinha?Obrigada e beijinhos

    ResponderExcluir
  6. Deu pra sentir tudo na pele, a intensidade, os sentimentos variando. É complicado até explicar, acho que desta vez, vou guardar a minha interpretação para mim, mas tem um potencial de explorar diversos pontos de vistas e interpretações nessas suas palavras, sempre tem, tu causa reboliço nas mentes alheias rs

    Belas palavras, passe bem amg <3
    xoxo

    ResponderExcluir
  7. Li, reli, salvei e vou imprimir pra colar na porta do meu guarda-roupas, porque o texto é muito motivador e merece um espaço lá ;) Seus textos estão cada vez mais apaixonantes!!!

    Beijos, Própria Mente

    ResponderExcluir