Eu tenho motivos

Nós já havíamos andado bastante pelo centro, já havíamos feito o que era preciso fazer e já havíamos parado para tomar suco, disfarçando a fome que assombra o estômago quando chega o meio do dia. Eu ria de alguma brincadeira de que agora não me recordo para em seguida resmungar sobre algo que agora não vem ao caso. Conversas cotidianas...

Quando me despedi das meninas para voltar para a minha cidade, desejando que tivessem um bom sábado ao lado de seus respectivos namorados e dando aquela velha desculpa de que eu não ficaria por lá porque não era obrigada a segurar vela a tarde inteira, surgiu, também, o velho comentário:

— Ah, Lari, tudo bem... A gente arranja um namorado para você!

Ri. Recusei educadamente. Disse que eu era seletiva. Agradeci a boa vontade. Despedi-me outra vez. Dei as costas. Fui para a casa.

Não que eu tenha ficado chateada com o comentário, afinal a intenção delas foi boa e estou tão acostumada a ouvir esse tipo de coisa quanto estou habituada a ouvir: “Nossa, você ficou mais alta desde a última vez que te vi!”. O problema é que eu não entendo porque as pessoas parecem se apiedar tanto da minha situação, como se eu tivesse prometido escalar o Everest de biquíni se Santo Antônio me concedesse a honra de ter um namorado e, mesmo assim, eu continuasse solteira.

Não, eu não fiz promessa para santo nenhum. Não, eu não estou na Rua da Amargura. E, caramba, eu não estou reclamando de estar solteira! Ou, melhor me expressando: claro que seria legal ter alguém com quem compartilhar um sentimento em comum, alguns sonhos e vários momentos, mas também seria legal ter grana para conhecer todos os continentes. Por hora não tenho nem uma coisa nem outra, mas não sou menos feliz por isso. Nem menos completa.

O que vivo e o que sou são resultados das minhas escolhas. Por mais ilusória que seja a liberdade, céus, eu ainda tenho o direito de decidir o que é melhor para mim! E essas decisões não surgem do nada: são resultados, por sua vez, das conclusões às quais cheguei ao longo de dezesseis anos...

Eu concluí, por exemplo, que o tempo é relativo. Desde a criação de um relógio preciso e de mil invenções para nos poupar trabalho, as pessoas vêm crendo, cada vez mais veemente, que o tempo passa rápido. Então, que larguemos os livros para dar lugar à TV! Que troquemos o calor dos encontros para conversar através de redes sociais! Que troquemos os esforços de uma conquista amorosa para conhecer várias bocas diferentes durante o mês ou mesmo numa única noite! Que não percamos tempo, jovens. A vida é curta e temos que aproveitá-la.

Aqui entra a conclusão número 2: parece que “Aproveitar a vida” é um conceito só. Constantemente alguém abusa da falta de certezas com a qual a idade me sobrecarregou e me convence de que eu não sei usufruir de tudo o que o mundo me proporciona; de que eu não sei aproveitar a vida. Eu já caí nesse discurso. Já tomei atitudes que iam contra os meus ideais simplesmente para me sentir “normal”, “parte do universo”... “jovem”. É patético que eu tenha acreditado que, mesmo que sejamos tão diferentes, somos obrigados a viver da mesma maneira, seguindo o mesmo roteiro — quem pensa assim dispensa a pouca liberdade que tem. Limita ainda mais a própria existência.

Conclusão número 3: meu tempo sou eu quem controla, minha vida sou eu quem vive. Não estou sendo grossa com ninguém além de mim, afinal fiz a afirmação unicamente para mim. Para que eu me lembre de que, se sigo meus próprios conceitos, não estou fazendo nada de errado. Mais: se outra pessoa acha que ler é falta do que fazer, viver ativo numa rede social é uma forma de se sentir incluído e ficar com várias pessoas é uma forma de adquirir novas experiências sem compromisso com resoluções, ela está certa também. São os conceitos dela. É a felicidade dela. Por que eu haveria de interferir nisso?

Eu não tenho um namorado, mas eu tenho motivos. Crenças, convicções. Penso que o mundo não gira ao meu redor e que eu não devo me intrometer em determinadas coisas, desejando, desesperadamente, que tudo se ajeite conforme a minha vontade. O que está ao meu alcance, eu faço; quanto ao que não está, eu respiro fundo e tenho paciência. Acredito no “dar tempo ao tempo” porque o meu tempo corre assim. Isso não significa que eu não lute pelo que eu quero, e sim que sei esperar pela oportunidade de colocar em prática a minha melhor estratégia de luta.

Acho que o amor é mais real do que um status no Facebook e menos fictício do que um “E viveram felizes para sempre”. Acho que namoro não é apenas encontrar alguém com quem andar de mãos dadas e matar a carência. Acho que, da próxima vez que alguma pessoa disser que vai me arranjar um namorado, eu vou pedir, encarecidamente, que ela prefira me arranjar um emprego. 

Estou topando um emprego de meio período.

10 comentários:

  1. Larissa! Li seu texto todinho e novamente concluo que sua mente se parece um pouco com a minha. Grande parte do pessoal do meu colégio já tem o seu "parzinho" e muitas vezes eles nem se gostam de verdade, é mais uma forma de aconchego nas horas ruins e carentes '-' Sinceramente, se for para viver um "romance" assim prefiro me tornar uma Carrie Bradshaw da vida.
    Enfim... Me inspirei em um texto seu para fazer uma improvisação na aula de teatro e novamente parabéns por esse seu talento <3

    Xoxo,
    Gabi.

    http://viagem-a-terra-do-nunca.blogspot.com/

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  2. Eu gostaria tanto de pensar assim como você :(

    brancadenev3.blogspot.com

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  3. Boa noite Lari.. pois disseste tudo.. tu é muito observadora e isso te dá o poder de saber tomar decisões..
    de saber o que é melhor para vc..
    segurar vela é o fim né.. e pior ainda alguém querer arranjar algo e nos empurrar para uma situação vazia..
    não se conhece uma pessoa em 10 minutos como muitos acham que conhecem saem beijando e uma semana depois estão enfiados num quarto chorando..
    sabado a noite depois de muito tempo conversei com meu primo.. e ele dizia do relacionamento dele que se acabou..
    disse que se soubesse que terminaria assim teria ficado sozinho..
    a ex namorada dele quando ele virava as costas pegava o celular que eu nunca suportei.. e futricava mensagens emails.. enfim.. as pessoas pensam o que da vida..
    cade o tal amor..
    é um querer mandar e controlar o outro que não tem mais fim..
    acho que seria mais util dar ao invés de rosas uma coleira com corrente..
    para ambos os lados..
    se não se atrai a pessoa legal por conta própria.. os outros que vão se frustrar certamente que fiquem bem no cantinho deles né..
    esse facebook que lembro de teres dito numa postagem tua.. ele já esta dando pra trás.. todas essas coisas vão se findar.. mantenha-se firme e com o teu propósito que tu vai longe Larissa
    bjs de boa noite

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  4. É muito engraçado quando nossos amigos se apiedam da nossa *situação desesperadora* que é estar solteira. Manda esse textos para eles lerem, sério.
    Hahaha, muito bom.
    d-atilografando.blogspot.com (post novo :'D)

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  5. Nossa é incrível a semelhança que enxergo entre eu adolescente e você agora.

    Seu texto é muito familiar e a frase: "Isto não significa que eu não lute pelo que eu quero, e sim que sei esperar pela oportunidade de colocar em prática a minha melhor estratégia de luta" é uma lição que aprendi nesse período também Lari.

    Atualmente, também prefiro um emprego do que uma namorada haha

    Beijos

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  6. Cara, sabe por que seu blog é um dos meus favoritos?
    Porque você escreve com paixão, dar pra sentir cada fragmento de emoção em cada palavrinha desse texto. Tem muita gente que não concorda com o nosso "conceito" e diz que somos loucos! Hoje sem quere dei um "fora" em uma pessoa pelas perguntas dela sobre namoro.... Não namorar não vai nos preder a não viver... E concordo com suas palavras. A vida está ai e precisa ser vivida.
    Ótima reflexão...
    Beijos querida :*
    Palavras Antigas · PLA

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  7. Falou e disse tudo! não entendo essa mania das pessoas de querer determinar regras para nossa própria vida.

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  8. Ri muito da parte de escalar o everest de biquini kkkk. Vivo a mesma situação e infelizmente já agi contra meus próprios princípios para não ser considerada a nerdinha da turma. "A que nunca sai" "A que nunca teve um namorado na vida" ou a "Antissocial que as vezes parece ter medo de gente". Aos 15 anos nunca havia "ficado" com garoto nenhum e isso era motivo de indagações na turma do tipo; Por que você é assim? Por que nunca se interessa por ninguém?. A resposta exata nunca encontrei do Porque eu nasci assim ou por ser assim. Simplesmente sou assim e pronto. Não quero chegar lá na frente e me arrepender por ter preenchido folhas com nomes de garotos que me envolvi sem sentimento algum. Acredito que usufruo sim do melhor que a vida e adolescência oferece. Pois sou como sou, sou feliz por ser quem sou e quanto aos comentários desagradáveis de "quando vou sair dessa mesmice" vou continuar ignorando. Pois como você disse "Minha vida sou eu quem vivo". ♥ Beijos

    www.pumpcolor.com.br

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  9. Lari, seus textos são demais! você se expressa muito bem escrevendo!!

    Engraçado...eu sempre ouvi que eu tinha que "aproveitar a vida" ... solteira... porque desde os 15 anos eu sempre estava namorando, não ficava muito tempo sozinha... aí eu casei, com 27 anos eu e 25 ele, eu ouvi pessoas dizendo que nós éramos muito jovens... aí fico pensando que se estivesse solteira, tenho certeza que essas mesmas pessoas estariam me "oferecendo" namorados por aí... quer dizer... vamos viver a nossa vida, né! cada um sabe de si...não? Mas a sua solução é muito boa... se vier querendo arranjar namorado, pede logo um emprego! rsrsrs

    Bjinhos
    JuJu

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  10. High Five.
    Eu sei como tu se sente. Farei 17 anos e eu NUNCA namorei. Na verdade nunca realmente me interessei nisso, mas sempre me falaram isso.
    Ai tu dá aquele sorriso maroto, recusa, leva na esportiva, mas por dentro: "Cale a boca, pls".
    É simples, ninguém ainda viu a minha fabulosidade, ou melhor, eu demoro a me interessar por alguém.;

    Sei lá.
    Acho que aproveitar a vida é relativo também. Cada um tem seu conceito de diversão e tem suas prioridades.
    Mas... eu ainda acho que todos devem aproveitar a vida, mesmo errando (errar faz parte, né), eu sei, eu sei, que clichê e impossível, mas, sei lá, ao menos devemos tentar pra não nos arrependermos.
    E sobre fazer o que vai contra os ideais, ah, bem, acho que todo mundo já fez isso uma vez na vida, e você se arrependeu e lembra disso até hoje. Isso mostra que você se importa. Que está amadurecendo. Isso também é importante.

    Eu não tenho lá muita paciência, eu só finjo (como diria Lenine), e eu realmente gosto de imaginar situações perfeitas mesmo sabendo que elas não vão acontecer. É o meu hobbie XD
    Essa sua definição de amor é bem bonita, muito embora existam vários tipos e até um pouquinho de amor já é amor. Mas não deixa de ser uma boa definição. Espero que você encontre alguém assim, quem sabe um dia, eu gosto de torcer para que coisas boas aconteçam (ai vai que acontece um milagre e a pessoa que eu gosto comece a gostar de mim? Vai saber, sonhar é tão bom XD ).

    P.S: Espero que encontre um bom emprego de meio período também <3

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