Compartilhando parágrafos (4)

 O suicida e o computador [Por Luis Fernando Veríssimo]: "Depois de fazer o laço da forca e colocar uma cadeira embaixo, o escritor sentou-se atrás da sua mesa de trabalho, ligou o computador e digitou: 'No fundo, no fundo, os escritores passam o tempo todo redigindo a sua nota de suicida. Os que se suicidam mesmo são os que a terminam mais cedo.'"

Até hoje não me decidi se, na produção de meus textos, gasto mais tempo na concepção da ideia, no trabalho de passá-la coerentemente para o papel ou nas revisões. Mas acho que, na maioria das vezes, a última opção é a que se faz correta: além dos erros ortográficos ou de concordância que parecem brotar do nada a cada corrida de olhos pelo corpo do texto, sempre há aquela impressãozinha infeliz de que está faltando uma palavra aqui, de que essa frase ficaria melhor ali, de que, na verdade, melhor seria reescrever tudo de novo. Como cronista genial que o Veríssimo é, ele entende esse calvário e entende que o computador é sádico e o deixa ainda pior.


 Sobre inspiração e cupcakes de Nutella [Por Manie]: "Algumas pessoas perguntam da onde tiro inspiração pra escrever. Muitas delas pensam que eu preparo o ambiente com incensos e convido índios para fazerem danças xamânicas aqui na sala de casa, pra depois irmos à pracinha daqui do bairro e dançar sobre a terra, descalços e tal."

Se as revisões são trabalhosas, à concepção das ideias cabe o título de imprevisível. Ideias vêm de lugares improváveis, de momentos inoportunos. Às vezes tomam o lugar do sono e, às vezes, vêm da rotina mesmo — é meu caso, geralmente. E é o caso da Manie.


 Cara, você é muito eu [Por Eilton Ribeiro] "Gica calmamente fixou numa presilha a franja grande que lhe escondia boa parte do rosto, enquanto Sandro terminava de contar a história. Era a primeira vez no dia em que ele via o rosto de Gica por inteiro, e ficou surpreso quando pôde constatar que era bonito. E de repente se desprezou por isso. Não parecia certo olhar para ela daquela forma."

Um vocabulário mais pesado — sendo que este “mais pesado” tem tradução livre de “tipicamente adolescente” — com um enredo leve: combinação improvável que deu muito certo no texto do Eilton! São 13 páginas que tomam nosso tempo sem que percebamos, tão fluida é a leitura. Mas penso que o que me fez gostar mesmo dela foi o fato de que a protagonista é o meu oposto: se por um lado sempre gostei de me identificar com os personagens principais, por outro aprendi com essa experiência que é interessante entender como funciona a cabeça de alguém diferente de nós e, de quebra, entendê-la. Mais até do que simples personagem... Relacioná-la como alguém, compreendê-la como pessoa.


 Morangos [Por Washington Albuquerque] (Link indisponível atualmente.): "Por este ardente desejo irei rastejar, seguindo as migalhas que você deixa."

Sem problemas compartilhar estrofes no Compartilhando parágrafos, né? Porque foi um caso de necessidade. Deixei por lá (no Um Gole de Utopia) a minha impressão: "Sob as suas palavras ficaram as visões do moço; sob a pele do moço, o desejo ardente... Sob a pele da moça, morangos. E o aroma entorpecente". Trouxe para cá a indicação.

2 comentários:

  1. Aqui again! A revisão com certeza é o mais cansativo, mais desgastante e mais demorado, eu levo muuuuuito tempo com as minhas e sempre algo passa batido, assim como fica também aquela impressão de que falta algo... WTF! Mas confesso que o título também é algo torturante rs Milhões de ideias se acumulam e eu passo dias pensando no que soa melhor rs Doentio, não?

    Quando a menção do meu texto, morri de amores, e sua impressão sobre o mesmo, não poderia ser melhor interpretada <3

    Isso aí.
    xoxoxo
    ugdu =]

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    1. Ah, obrigada por ter comentado de novo, Washington! Ainda mais um comentário tão bacana... Pior que não acho sua mania doentia: acho justificável. Coisa de escritor, haha.

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