Soluções Para Todos os Contratempos da Vida [Parte II]

Perdeu a primeira parte do conto? Ah, não tem problema: ela está aqui.

Agarrada numa junção imaginária de todas essas coisas, eu esperava que ela retornasse à cozinha com uma bandeja cheia de velas cor-de-vinho exalando uma essência adocicada, um baralho de cartas e alguns testes de personalidade. Entretanto, quando ela apareceu, carregava consigo uma pilha de livros.

Observei-a, perplexa. Ela percebeu, e tentou esclarecer a dúvida que eu não verbalizara:

Dominique Climaseco, Soluções Para Todos os Contratempos da Vida. Aqui estão as suas soluções, menina.

Livros? — perguntei, imaginando com o que exatamente livros poderiam me ajudar naquela situação.

— Sim, livros. Livros que vão auxiliá-la no cultivo do seu amor-próprio. Acabei de separá-los exclusivamente para você.

Eu continuava sem entender nada, mas, como não sabia, também, como fazer Madame Climaseco me dar respostas com sentido, pus-me a traçar uma linha de raciocínio que terminava na questão: o que eu estava fazendo ali?

Eu tinha um problema. Meu namorado. Na verdade, eu parecia ser um problema para meu namorado, de modo que talvez ele tivesse arranjado outra namorada. Mas eu ainda me considerava sua namorada. Logo, fui conversar com uma de minhas melhores amigas. Uma de minhas melhores amigas, Ariela. Ariela era a conselheira mais genial que eu conhecia. Mas Ariela andava alheada. Ariela não podia me aconselhar. Então, ela me deu um endereço. Rua Malgma Cavalcanti, 325, correspondente a uma casa cuja porta tinha a descrição: Dominique Climaseco, Soluções Para Todos os Contratempos da Vida. A dona da casa era meio velha. Meio velha, rabugenta e louca. No mais, eu não sabia o que ela era. Psicóloga? Vidente? Conselheira amorosa? Mãe-de-santo? Não, eu não sabia mesmo.

Mas eu estava ali. Madame Climaseco também, com uma pilha de livros e, eu desconfiava: consciente da enorme confusão em minha cabeça.

— Eu sou bibliotecária — esclareceu ela, por fim. — Na verdade, contadora de histórias, mas para quem acaba de me conhecer, sou apenas bibliotecária. Sabe o cômodo da entrada, pelo qual você esperava passar quando chegou? Está repleto de livros. De cima até em baixo. Em todas as paredes, e nos meios, também. E a porta está bloqueada por uma estante.

Ela fez silêncio por um instante que, pelo seu olhar arregalado e fixo em mim, eu deduzi ser a pausa em que eu deveria absorver as recentes informações.

Eu não tinha nem começado com o exercício mental quando ela prosseguiu:

— Os livros sempre podem ajudar na solução de um problema. No caso de uma pesquisa, de um trabalho escolar, eles ajudam de maneira direta. Você só precisa abrir no sumário, descobrir a página correspondente ao tema procurado, transcrever para uma folha à parte um trecho ou dois e pronto. Agora, nos contratempos da vida, os livros ajudam indiretamente. Porque, se bem escolhidos, dão duas opções para a pessoa que os lê: a primeira opção é a distração; mergulhar na leitura e esquecer todas as angústias da vida, abrir mão da própria vida, por determinado tempo, para viver a de algum personagem. Isso tem bons resultados... Faz com que a pessoa deixe para trás o estresse do mesmo modo que vira as páginas do livro, e possa tomar decisões com clareza quando tiver que voltar à realidade atual. Mas vamos à segunda opção: as respostas nas entrelinhas de um livro.

Não pude me conter:

— Acho que estou entendendo. A senhora me falou de amor-próprio, e disse que os livros vão me ajudar com isso... Pelo que eu entendi, a senhora escolheu para mim livros de autoajuda, então?

Ela bateu com a pilha de livros na mesa, visivelmente impaciente, fazendo com que eu levasse um susto que me fez pular da cadeira. Um pouco alterada, respondeu:

Não, menina, não! Você prestou atenção no que eu acabei de dizer? Respostas prontas são úteis apenas em trabalhos de curto prazo! Se você quer soluções para todos os contratempos da vida, precisa ser um pouquinha mais obstinada! Ah, vocês jovens, sempre condicionados pelo tempo... Não é à toa que adoecem antes da hora...

Depois de balançar a cabeça enfaticamente umas cinco vezes, prosseguiu:

— As respostas das entrelinhas são sutis. Não fazem sentido se lidas separadamente, precisam estar encaixadas no contexto. Por isso que raramente conselhos fazem efeito, entende? Conselhos são prontos, generalizados. São máximas passadas de geração para geração. Uma vez que se acostume com eles, é fácil começar a ignorá-los por puro capricho. Sua amiga deve ter percebido que você andava ignorando os conselhos dela, por isso a mandou aqui. Ande, tome suas entrelinhas.

Ela me entregou a pilha de livros. Mesmo que eu não estivesse entendendo bulhufas, não tive escolha, se não aceitar.

— Ah... sobre o que são estes livros? — perguntei, já esperando um soco na mesa, já que a pilha de livros agora estava sob meu poder. Mas Madame Climaseco parecia calma outra vez:

— Aventura, romance, crimes... Tem um de ficção científica aí no meio, também.

Juro que tive que me segurar muito para não questionar no que é que um livro de ficção científica iria ser adequado à minha situação, uma vez que eu tinha problemas com meu namorado e uma vez que Madame Dominique acreditava, em contrapartida, que meu problema fosse falta de amor-próprio.

Não questionei, mas de certa forma ela me respondeu:

— Concentre-se nas entrelinhas. Viva as aventuras que esses livros lhe proporcionarão, esqueça suas neuras. Depois, absorva o que assimilou nas entrelinhas. E nos diálogos, e nas divagações do autor. O que um personagem vive, o que um personagem aprende, são conselhos práticos que o leitor aproveita. Aproveite.

— Mas...

— Ah, vamos, menina! — impacientou-se ela, outra vez — Dê um pouco de sossego para o seu namorado! Aposto que o coitado não aguenta mais você no pé dele o dia inteiro!

Aí eu comecei a entender...

1. Leia um livro para se distrair.
2. Leia um livro para aprender e, de quebra, tornar-se mais humano.
3. Leia um livro para dar sossego para o seu namorado que provavelmente não está tendo um caso com outra garota: só está se sentindo meio sufocado com o excesso de atenção.

Livros: Soluções Para Todos os Contratempos da Vida.

5 comentários:

  1. Por fim *-* Amando. Realmente precisamos de um cano de escape das neuras da vida, e para mim muitas vezes um deles são os livros. A delícia de poder viver outras vidas, outros mundos, outras situações, ameniza o estresse da realidade e muitas vezes realmente nos ajuda a chegar em boas soluções, respostas e conclusões.

    Lindo *-*
    Isso aí!
    xoxoxo
    ugdu =]

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  2. Haha finalmente! Não imaginava que a Madame Climaseco fosse uma contadora de história, admito sem culpa. O desenrolar e a solução dela pro "problema" é a realmente correto, os livros podem tornar-me mais humano e ainda por cima me divertir e fazer esquecer de outras coisas, concentrado nas suas páginas.
    Gostei tanto do conto... eu posso reproduzir ele no Facebook? Se puder, vou ficar muito grato n_n

    blog-espelhodigital.blogspot.com

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    1. Ah, que bom que você gostou, moço! Pode reproduzir o conto, sim. Créditos eu sei que você vai dar, afinal qualquer blogueiro sabe a importância que eles têm, mas, se, não for pedir muito, gostaria que você desse esses créditos com o link daqui ou da postagem em questão [http://blogjeitounico.blogspot.com.br/2014/08/010814.html]. Pode ser? Porque é uma forma bacana de divulgar meu trabalho, e se você concordasse, eu ficaria muito feliz ♥

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  3. Amei o final e confesso que não tinha ideia de como você terminaria, me surpreendeu positivamente!

    Serenata a Capella

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  4. Amei, amei, amei! Assim como a Jéssica, eu também esperava que a Madame Climaseco aparecesse com incensos, um baralho de cartas e testes de personalidade, ela me tinha cara de cigana. :P Livros são mesmo soluções para todos os contratempos da vida.
    Beijos || Unlocked Land ❤

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