Soluções Para Todos os Contratempos da Vida [Parte I]

Olhei para um lado da rua, olhei para o outro. Não havia nenhum carro passando, e tudo o que pude divisar, próximo à última casa que minha visão alcançava, era um grupo de crianças que certamente estavam mais ocupadas em gargalhar alto do que em prestar atenção em mim. Melhor assim. Eu ficaria constrangida se fosse reconhecida ali.

Voltei, então, a visualizar a porta diante do meu nariz, na qual havia uma descrição discreta que dizia: Dominique Climaseco, Soluções Para Todos os Contratempos da Vida. Hesitando, perguntei-me se Ariela estava tirando um sarro com minha cara quando me recomendou aquele lugar. Não que fosse comum de sua personalidade fazer piadas de mau-gosto, mas, se ela sempre teve os melhores conselhos do mundo para meus problemas, por que agora, quando eu enfrentava um dos mais complicados, ela resolvera simplesmente me entregar um papel com o endereço “Rua Malgma Cavalcanti, 325”?

Enquanto eu estava absorta em tais pensamentos, uma voz soou clara, apesar de um tanto quanto rouca e antipática, do outro lado da entrada:

— Você vai ficar até que horas aí fora, esmagando meu tapete de fibra de bambu?

Fiquei sem saber o que fazer. Bater na porta seria estupidez, uma vez que a dona da casa já estava ciente da minha presença, mas empurrar para baixo a maçaneta e ir entrando também me parecia pouco conveniente. Para meu profundo alívio, a voz rouca e rabugenta se fez soar outra vez:

— O portãozinho do lado da casa está aberto. É só passar por ele e atravessar o corredor até a porta dos fundos, que está aberta também.

Obedeci, passando por um quintal malcuidado enquanto me questionava duas coisas: por que eu não havia sido convidada a entrar pela porta da frente e onde havia ficado meu juízo, para eu ter concordado em ir até ali sem ter a menor noção de quem era Dominique Climaseco.

Minha noção aumentou um pouco assim que transpassei a entrada indicada, chegando ao que me pareceu ser uma cozinha: uma mulher baixa, poucas rugas no rosto emoldurado por um curto e volumoso cabelo cinzento, xales de diferentes estampas caindo sobre os ombros e ar de poucos amigos veio me receber.

— B-boa tarde, Dona Dominique Climaseco — cumprimentei, insegura.

— “Madame” — retrucou ela, meramente.

— Madame Dominique Climaseco — corrigi-me, agora sem graça.

— Apenas “Climaseco”. Madame Climaseco.

— Tudo bem, Madame Clim...

Tá, tá. Já entendi. O que quer aqui, menina?

Temendo ser repreendida pela quarta vez — ao mesmo tempo em que temia que meu desejo me traísse, fazendo com que eu acabasse por sair correndo dali —, respondi rapidamente:

— Meu nome é Jéssica, e estou aqui por recomendação de uma amiga que conhece a senhora há algum tempo. Ariela Sunflower, lembra-se dela? Enfim, ela foi minha conselheira a vida toda (afinal eu já disse que ela é minha amiga), mas anda totalmente avoada ultimamente e, ao ouvir meu último desabafo, achou que a senhora poderia me ser mais útil do que ela. Isso foi de manhã. O problema é que meu assunto é urgente, então pedi a Ariela para marcar para mim um horário com a senhora hoje à tarde mesmo. Bom, aqui estou. Aqui estou e, peço que me perdoe, mas não faço a mínima ideia de quem a senhora é.

Dominique Climaseco, Soluções Para Todos os Contratempos da Vida — respondeu-me pausadamente, como que garantindo que eu pudesse entendê-la bem.

Mas essa parte eu já tinha entendido!”, pensei, começando a ficar irritada.

— O que faz aqui, menina? — ela tornou a me perguntar, ignorando, de propósito, que eu já havia respondido aquela pergunta.

Resolvi, então, ser mais direta:

— Acho que meu namorado está saindo com outra garota.

Madame Climaseco me encarou por uns breves segundos. Ajeitou os xales sobre o corpo, indicou-me uma cadeira e sentou-se em outra. E falou:

— Diga.

— Ué, mas eu acabei de dizer! Meu namorado est...

— Diga — interrompeu-me, arqueando as sobrancelhas: — o que faz com que você acredite que seu namorado está saindo com outra garota?

Sua atitude era intimidadora. Ela me dava um pouco de medo.

— Bem, ele não... ele não é como era antes. Ele está mudado. É isso.

— Só isso?

— Não, não só isso! — objetei com um quê ofendido — Ele não atende mais minhas ligações, e, e, e não está saindo comigo do mesmo modo que saía quando começamos a namorar! Está me deixando em segundo plano, entende?

— Entendo. O primeiro plano dele agora é, então, outra garota?

— Eu acho que sim.

— E qual é seu primeiro plano?

— Desculpe-me, mas não é meio óbvio? Estou aqui por causa do meu namorado. Ele é meu primeiro plano.

Ela balançou a cabeça negativamente, a boca fechada numa linha que demonstrava insatisfação.

— Resposta errada, menina. Seu primeiro plano deveria ser você — disse, enfim.

Como eu permaneci calada, Madame Climaseco se levantou e pediu que eu esperasse um instante, que ela ia buscar uma coisa. Concordei e, quando vi sua cabeleira cinzenta sumir pela entrada do cômodo vizinho, fiquei imaginando o que seria... Aliás, o que era, exatamente, Madame Climaseco? Psicóloga? Vidente? Conselheira amorosa? Mãe-de-santo?

Quem era Madame Climaseco? Vejam na parte II!

7 comentários:

  1. Ah! Wtf? Eu lendo todo entretido e chega no final e dou de cara na porta da parte II IQWHIDUHQWDUIQWD Tudo bem, eu li no título que era parte I, mas me deixei levar rs enfim... Adoro esses gostinho de quero mais, a Madame tratou o assunto com uma simplicidade de pessoa experiente diante de uma questão juvenil, vai ser interessante ver onde ela chegará com tal assunto.

    *---*
    Isso aí.
    xoxoxo
    ugdu :~]

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  2. Espero que a segunda parte não demore, estou curiosa haha

    Adorei
    serenataacapella.blogspot.com.br

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  3. Bom dia Lari.. sempre com a criatividade aflorada.. tens muito talento.. rica em detalhes.. que continue a trilhar este belo caminho..
    sobre esses assuntos ligados a relacionamentos muitas pessoas se sentem algum desconforto já buscam tudo que é ajuda.. ou coisas muito erradas..
    falando no real tem pessoas que mandam fazer amarras para ficar com alguém o que torna suas vidas amarradas.. nada funciona.. a parte final é bem verdadeira.. sempre colocamos o outro em primeiro plano.. nos deixamos de lado e não entendemos o pq as coisas não fluem.. primeiro ame-se para amar e ter o amor do outro.. bjs de bom dia e até sempre

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  4. um pouco de suspense no final. eu acho que ela é uma mãe de santo ou macumbeira. mas, de qualquer modo, a jéssica pode estar errada sobre o namorado [veremos..]. e a dona dominique está certa: a gente em primeiro lugar.

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  5. Lari, que história hein! Quando cheguei no "Mãe-de-santo?" rolei a página pra ver o próximo parágrafo e me surpreendi com o seu aviso hahaha Quero a parte 2 o mais rápido possível, totalmente curioso pela história! *O*
    E a vaga de afiliação é sua, obrigado por pedir ><

    blog-espelhodigital.blogspot.com

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  6. Lari, você me surpreende cada vez mais com essa sua criatividade, sério. Puxa vida, cheguei atrasada para ler essa pequena série de dois textos aqui no blog. Muito interessante. Apesar de meio irritante, essa Madame Climaseco está certa quanto ao problema da Jéssica. E, saindo do foco desse comentário, eu ri muito com a frase "Você vai ficar até que horas aí, esmagando meu tapete de fibra de bambu?" :P
    Beijos || Unlocked Land ❤

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