Se a nostalgia atravessar a rua

— Boa tarde, Seu André!

O cumprimento veio de um rapaz louro, jeito de universitário (e de fato quase formado em medicina), e foi dirigido a um senhor que passava em frente ao carro parado junto ao acostamento, dentro do qual aquele se encontrava com as mãos descansando sobre o volante.

O senhor meneou a cabeça e deu um meio sorriso, dosando perceptivelmente a educação e o encabulamento. Não se lembrava daquele jovem. Muito menos sabia que seu nome era Pedro Gabriel.

Pedro Gabriel não pôde conter um riso faceiro que lhe subia ao peito. A expressão de Seu André o divertira e tirara-lhe inexplicavelmente dos ombros boa parte do peso que carregou nos últimos anos — a incerteza sobre sua vida quando acabasse o Ensino Médio, os vestibulares infindáveis, o ingresso numa faculdade na capital de São Paulo e o afastamento da família nesse voo arriscado para fora do ninho. É que, enquanto ele observava o senhor atravessar a rua, vinham ao seu encontro, na direção oposta, as lembranças da infância. Em especial as lembranças das peladas na rua dos fundos, jogadas com os pés descalços e o peito despido. Depois que a bola passava várias vezes pelo gol adversário, marcado com um tijolo de um lado e um pedaço de pau do outro, e quando o suor já escorria tanto que os cabelos mais pareciam tentáculos pegajosos sobre a testa, a molecada se despedia e ia para a casa tomar banho e jantar. Dormir, não, porque naquela época já haviam inventado o videogame. E o Alexandre, que morava com o avô, tinha um videogame em casa. Para Pedro Gabriel aquilo era o máximo! Ele não hesitava em passar em casa correndo, chamar a mãe na porta e teimar, com carinha chorona, no discurso habitual: “Ô, mãe, por favor! Você prometeu! Prometeu, sim, na semana passada, quando eu tirei A na prova de Matemática e você concordou que, de recompensa, eu ia poder brincar na casa do Xande! Ah, por favor, diz que sim...” A mãe cedia com a condição de que ele tomasse banho, jantasse, escovasse os dentes e fizesse todos os deveres de casa antes de ir.

Trato feito, ele cumpria sua parte em incríveis 30 minutos e já saía porta afora, subindo o morro, correndo, em direção à casa do amigo.

Lá chegando, jogavam videogame até que as articulações dos dedos doessem, que os olhos começassem a ficar um pouco ardentes e que o jogo, estando em sua fase mais importante, acabasse pifando com um esbarrão inoportuno de um dos dois garotos nos fios que conectavam o aparelho à televisão. Aí xingavam alto. E o avô de Alexandre, em vez de repreendê-los, chegava à sala rindo indulgentemente. Com uma panela fumegante de mingau de chocolate em mãos, espremia-se entre eles no sofá ao mesmo tempo em que distribuía colheres. Então começava a contar que na época dele os meninos não podiam ficar irritados por causa de videogames porque essas coisas não existiam, mas se, por algum motivo, estivessem com os nervos à flor da pele, não existia remédio melhor do que descer desembestadamente uma ladeira com um carrinho de rolimã, porque assim qualquer pensamento ruim guardado na cabeça vazava pelos cabelos esvoaçantes, perdia-se no vento e ficava para trás.

Eis que o avô do Xande era o Seu André. 

Depois da infância bem aproveitada na cidade onde participara de tantas partidas de futebol e videogame, Pedro Gabriel se mudara com a família para uma cidade maior, e depois, sozinho, se mudara para uma cidade maior ainda. Se agora não se encontrava em São Paulo, é porque estava de férias. E se agora se encontrava naquele pedaço de mundo que para ele era o mundo inteiro quando tinha 10 anos, é porque tinha um carro e carteira de motorista, e não via problema em se entregar a um pouquinho de nostalgia. Mesmo que a nostalgia atravessasse a rua sem reconhecê-lo.

Todavia, antes que Pedro Gabriel saísse de seus devaneios para pegar estrada novamente, Seu André tornou a atravessar a rua. Passou no vão entre uma caminhonete azul estacionada na porta de uma loja e seu carro, sem hesitar a curvar-se, disfarçadamente, e franzir o cenho ao olhar a placa deste quando passou. O universitário bem sabia que ler “São Paulo – SP” num pedaço de metal branco fixado no para-choque não traria nenhuma lembrança relacionada a ele ao velho, mas sentia-se bem com o fato de que, se ele tentava extrair alguma informação sobre o estranho que o cumprimentara pelo nome (sem ser rude, confessando-lhe diretamente que não o conhecia), é porque talvez alguma vaga impressão do passado lhe viera à mente, e ele, de alguma forma, se importava.

Pedro Gabriel, perdendo Seu André de vista outra vez, ligou a ignição e acelerou o carro. Era hora de voltar para a realidade atual. Rumo a um campus cheio de pessoas com histórias, além de vantagens, para contar. Mas ninguém contava. Era demais esperar que algum estudante se desocupasse da puxada rotina de estudos e viesse em sua direção com uma panela fumegante de mingau de chocolate, narrando casos de criança. Não havia tempo para isso. O mundo quer profissionais formados, não lembranças informadas. “Quem se importa com o passado?”, pensava. “Não, temos de viver o presente”. Não o presente pelo presente, mas o presente pelo futuro.

E era melhor que ele se conformasse, também, com o fato de que nenhum dos professores que não sabiam seu nome voltaria para verificar a placa do seu carro mais tarde. (A menos que ele colidisse com o carro de algum deles, é claro.)

6 comentários:

  1. "...era hora de voltar a realidade atual..."
    Adoro seus textos, você escreve muito bem!
    http://in-acreditaveis.blogspot.com.br/

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  2. Meu deus, vc ta cada vez melhor, adorei o texto <3 Ta marailhoso...
    Beijos
    http://lembranca-ao-vento.blogspot.com/

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  3. Você é tão descritiva e observadora.
    Sua escrita é linda ^^

    http://karinapinheiro.com.br/blog/

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  4. Nossa, estou encantada com a sua escrita. Parabéns!

    serenataacapella.blogspot.com.br

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  5. Amei o texto, voce escreve tão bem, cada dia melhor.
    Beijos
    Dezesseis de Volta

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  6. Terminar todas as tarefas em casa só pra convencer a mãe a te deixar brincar mais:::: quem nunca? Amei o texto, espero sempre que quando eu for mais velha, também passe por esses momentos de nostalgia, pra não virar só mais um adulto ocupado. Aliás, acho que adolescentes em geral tem uma queda por momentos de nostalgia, não acha?
    Beijo!
    d-atilografando.blogspot.com

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