Aflições de uma noite de insônia

Que eu pare de virar de um lado para o outro do colchão como se algum canibal tivesse acendido uma fogueira debaixo da cama. Que os gatos que estão lá fora parem de fazer ruídos estranhos, afinal meu jardim não é motel e a intimidade deles não me interessa. Que o cachorro da vizinha não fique latindo, para completar, porque a intimidade dos gatos também não é da conta dele. Que a criatura do quarto ao lado pare de roncar em decibéis mais altos do que meus fones de ouvido suportariam, se o ronco estivesse sendo irradiado neles. Que a imagem de quem não merece meus devaneios não fique na minha cabeça, pois quando eu conseguir a proeza de pegar no sono, não quero correr o risco de ter sonhos inoportunos. Que meu celular não fique acendendo sua tela a cada dez minutos, porque eu já entendi que ele está com a bateria fraca, mas agora que meus pés resolveram esquentar não existe a menor possibilidade de eu levantar para procurar o carregador. Que minha vontade de ir ao banheiro passe, também, pelo mesmo motivo dos pés aquecidos. Que eu pare de lembrar a mim mesma que estarei parecendo um vampiro desnutrido quando eu levantar da cama, porque essa certeza não fará com que eu durma mais rápido, nem que minhas olheiras diminuam, e já são quatro e meia da manhã. E que eu pare de ficar tendo ideias para textos a essas horas, para variar, porque eu já disse trocentas vezes que não vou largar minhas cobertas nem que o Príncipe Harry comece a jogar pedrinhas na minha janela — até porque minha janela dá direto para o muro do quintal dos fundos. 

(Que eu durma, pelo amor dos céus! Que eu durma, porque não aguento mais o barulho infernal dos... meus próprios pensamentos.)



Este texto é uma intertextualidade, em forma de paródia, com outro texto postado aqui no blog anteriormente: Preces de uma noite de insônia. Porque existem dois tipos de noites mal dormidas: um (representado pelo primeiro post) é culpa dos nossos sentimentos, e quase chega a ser gostoso ficar acordada vivenciando cenas passadas e fantasiando momentos futuros; o outro (representado por este post) deve-se a todas as circunstâncias que conspiram para que nós, meros seres humanos cansados, simplesmente não consigamos pregar os olhos.

6 comentários:

  1. Que texto divo gente haha. Amei é dessa forma que acontecem aqui.
    Beijos
    Dezesseis de Volta

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  2. Bom dia Larrisa.. que fim rsrsr
    tudo que muito passo por aqui...
    gatos gemendo ng merece.. bahhh vão se catar.. de boa né..
    meu cocker vê uma mosca sai latindo a noite toda tb..
    ronquidão não minha claro.. me fez abandonar meu quarto e ir dormir num sofa no porão na outra ponta...
    minha mãe abala as estruturas..
    teve uma época que tinha comprado o sino dos ventos.. quando ela começa a roncar au sacudia e acordava a casa toda..
    problemas com celular não tenho graças a Deus rsrs
    insonia é o fim mesmo.. tenho amigas que me mandam email as 3 da manhã..
    pessoas muito mentais são assim.. é bem complicado né..
    beijos de bom dia moça querida

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  3. Gostei muito do texto. Achei a ideia bem original
    me identifiquei, porque quando eu estou chateada tudo me aborrece também haha
    gostei muito do final, foi surpreendente. Me identifiquei
    beijo grande

    http://karinapinheiro.com.br/blog/

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  4. Que legal, nunca tinha lido um texto dessa maneira, de certa forma anexado à outro texto. Vou ler o outro também sem dúvidas. Gosto como usou uma figura de linguagem para iniciar as frases e amarra-las. Me identifiquei, mesmo não tendo muito insônia, porque olho o mundo quase da mesma maneira. Os gatos seriam realmente uma frase minha! :3 Adorei mesmo. Vou divulgar na Fan Page do Acesso Permitido!

    ACESSO PERMITIDO: ♥
    http://acessopermitidoblog.blogspot.com.br/

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  5. Achei super realista. Alias me vejo em alguns trechos do textos, é ruim querer dormir e nossa mente ficar martelando em memórias. Muito bom mesmo Lari, você sabe que gosto dos seus textos. Miiil Beeeeeeejus! ♥

    www.dallyse.blogspot.com.br

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  6. Eu consegui me imaginar como a personagem ao longo do texto, até porque eu tenho muitas noites mal dormidas parecidas com essa.
    O pior barulho que eu já escutei foi o do meus próprios pensamentos.
    O cérebro é a parte do corpo programada pra você se arrepender de cada palavra, cada atitude, cada pensamento, que você proferiu, fez ou teve ao longo do seu dia, tudo isso no fim do dia quando você tá cansada e se deita.
    Ou... .talvez seja só comigo :T

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