Por mais dias unicamente vividos

É fácil me confundir com as contas de a quantos filmes que me fizeram refletir sobre o tempo eu já assisti... Tempo que vai e tempo que volta, tempo que cria rugas em volta dos olhos, tempo vendido, comprado, perdido, tempo que escorre pelas mãos. Quanto tempo gastamos pensando sobre o tempo que gastamos?

Questionamentos sobre o tempo me levam, invariavelmente, a crises existenciais. A terrível angústia que envolve as lembranças recentes do que eu tenho feito... 

Sei que não tenho vivido meus dias como se fossem os últimos, sei que não tenho dado o melhor de mim. Sei, mais do que tudo, que já cheguei a estas conclusões outras vezes, que prometi que faria tudo diferente e acabei fazendo igual. Sinal de que chegou a hora, então, de parar de usar o “fazer diferente” nas minhas promessas e fazer as minhas promessas diferenciadas. São os sonhos pequenos que constroem os sonhos grandes, da mesma forma que o ditado dizia que é necessário subir os primeiros degraus de uma escadaria se a intenção for alcançar o topo. O que eu quero dizer é que não vou mudar de uma vez. Não posso. Vou precisar de tempo para ter controle sobre o (meu) tempo. Meu erro até agora consistiu em fazer juramentos nos quais eu já me enxergava realizada, sem perceber que, na verdade, eu estava era idealizada!

Vou prometer, então, um primeiro passo: amanhã vou acordar e seguir o conselho da oração que diz que devo viver exclusivamente este meu dia, sem querer resolver o problema da minha vida todo de uma vez; vou cantar os versos da canção que mandavam eu não deixar nada para a semana que vem, porque a semana que vem pode nem chegar; vou lembrar de um trecho grifado do meu exemplar de O Pequeno Príncipe, no qual o Principezinho, ao descobrir o comércio de pílulas da água que faziam com que uma pessoa economizasse os 53 minutos semanais que gastaria tendo que buscar um copo de água sempre que sentisse sede, diz: “Eu, [...], se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, iria caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte...”; e vou, é claro, lembrar do filme culpado pela minha última crise existencial, que deixou gravado em minha mente a mensagem de que, mesmo que pudéssemos voltar no passado quantas vezes julgássemos necessário para consertar o nosso presente, e mesmo que essas regressões não afetassem com as nossas novas escolhas as escolhas dos outros, num famoso “efeito borboleta”, a graça ainda iria consistir na plenitude de um dia bem vivido — um dia vivido uma única vez, mas unicamente vivido.

Desculpem por este texto, caso ele tenha sido muito cansativo. Escrevi-o na madrugada do dia 26, no mês passado, depois de ter assistido About Time (Questão de Tempo, no Brasil). As duas horas do longa não trazem consigo cenas muito marcantes além da fotografia bacana e do figurino da Mary (interpretada por Rachel McAdams), que me deixou encantada do início ao fim, mas elas consertaram uma ideia fixa que eu tinha sobre viagens no tempo: até então eu só tinha pensado pelo lado filosófico das escolhas que afetam escolhas e, consequentemente, afetam a todos que nos cercam — o tal Efeito Borboleta, teoria estampada no filme de mesmo nome. Em About Time, as voltas no tempo ficam, ao meu ver, quase que isentas dessa reação em massa. 

... Daí que vem a reflexão: mesmo que o conserto de tempo ocorresse às mil maravilhas, a graça da vida continuaria a residir nos momentos originais. Tudo depende da forma como você os encara... Porque, por piores que sejam as circunstâncias, se você sabe sorrir e prosseguir tocando a vida positivamente, com todo o sopro de inspiração da existência que conseguir sentir renovando sua alma, ah, meu caro ou minha cara... Você se sentirá a pessoa mais privilegiada do mundo, e as incertezas estarão entre as suas mais agradáveis companhias!

8 comentários:

  1. Como não amar seus textos, hein?
    Cada dia que entro aqui me deparo com outro texto lindo que me faz refleti e pegar meu caderninho de mão e escrever coisas loucas e sem sentido...
    Essa coisa sobre o tempo é tão profunda e simples que chega a dar dor de cabeça... ás vezes vamos adiando coisas inevitáveis, ou nos preocupamos demais com coisas sem nexo... vamos deixando para depois um sonho, e vamos perdendo uma parte de nosso futuro no caminho...
    http://in-acreditaveis.blogspot.com.br/

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  2. Eu já me peguei noites inteiras sem dormir me questionando sobre o tempo, o que gasto, o que faço, fiz e deixei de fazer, como teria feito ou o que poderia fazer e putz, é cavar a própria cova. Mas realmente se mudarmos a perspectiva e viver o que deve ser vivido à flor da pele, acho que essas dúvidas iriam se extinguir. Enfim, queria comentar sobre o filme Lari, mas não assisti ainda, porém vai para a lista do Filmow rs

    Isso aí.
    xoxoxoxo

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  3. Muito bom dia querida Larissa.. o que mais vamos fazer nos dias de existência é tentar entender os mecanismos do tempo..
    fato é que este é uma ilusão para nós na terceira dimensão..
    planos superiores ele não existe..
    mas enquanto aqui, temos sim que buscar captar o máximo e não deixar ele nos sugar..
    muita gente diz hj não tenho tempo...
    para um livro se escuta as milhares.. mas para jogar papo fora em redes sociais muitos nem se questionam..
    e são horas que se vão lá..
    bjs e até sempre

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  4. Concordo completamente. Creio que o tempo que ser aproveitado com aquilo que amamos e sem ganancias e sem preocupações, porque o tempo é na verdade a única coisa que temos! Ótima postagem, já assisti "About Time" é um ótimo filme!

    ACESSO PERMITIDO: ♥
    http://acessopermitidoblog.blogspot.com.br/

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  5. Pois é, Lari. Esse filme é encantador justamente por esse motivo.
    Eu também tinha mania de tentar planejar a minha vida (e meticulosamente) e acaba que, quanto mais planejo, mais me torno improdutiva (como se não bastasse o perfeccionismo, que já me torna naturalmente mais lenta).
    Viver já é algo tão grande. Não se pode nem cobrar a felicidade, sabe? Pois viver já é tão grandioso! Já é tão grandioso dar o melhor que sem tem a cada dia. Então o bom é ter realmente essa certeza, de que viveu da melhor forma possível que poderia ter vivido aquilo. Ter essa paz no coração.
    Seu blog está liiiiindo. Um beijo, moça.

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  6. Meu Deus, o seu blog é o melhor de todos. Sempre que quero inspiração para qualquer coisa entro aqui, leio um texto maravilhoso e encontro as respostas. Não sei se é pelo fato de eu amar poesias/ textos, ou se é por que eu tenho alguns gostos e manias parecidas com as suas, só sei que amo o seu cantinho. E agora sobre o tempo: acredito que mesmo que voltássemos mil vezes no tempo para tentarmos o mudar, não o mudaríamos. Gosto da concepção do "efeito borboleta", e de seu lado filosófico, mas não acredito nela. O tempo é imutável, não porquê ainda não inventamos uma máquina para poder navegar por ele, mas sim porquê não temos a noção do que mudarmos exatamente, e porque provavelmente não conseguiríamos mudá-lo com uma só ação. E "não deixe pra depois, não deixe o tempo passar... não deixe nada pra a semana que vem, porque a semana que... vem pode nem chegar"!

    Beijos, INconvencional!

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  7. Looks scary but cool :D

    WWW.PUTRIVALENTINALIM.BLOGSPOT.COM

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  8. "Quanto tempo gastamos pensando sobre o tempo que gastamos?"
    Fiquei alguns segundo parada nessa frase, penando.
    Realmente... eu devo ter gasto horas pensando sobre isso, no meu tempo perdido.

    "Sei que não tenho vivido meus dias como se fossem os últimos, sei que não tenho dado o melhor de mim. Sei, mais do que tudo, que já cheguei a estas conclusões outras vezes, que prometi que faria tudo diferente e acabei fazendo igual."

    Esse trecho define a minha principal crise existencial.
    Estou pensando em tantas coisas, sentindo, e não consigo colocar nem 1% em palavras, não consigo escrever, e isso tudo machuca.
    Machuca porque eu me sinto dessa forma, "que não estou dando o melhor de mim", mas o pior nem é isso, o pior é os outros cobrando isso de mim, cobrando decisões, apressando o meu tempo. Acho que é isso que sufoca.
    Meu erro é sempre querer na hora, eu só finjo ter paciência, mas sou ansiosa e apressada, sei que isso é um defeito, mas consegui conviver com ele até agora e já não me vejo capaz de mudar esse meu lado XD

    Espero que você consiga atingir a meta, o seu final idealizado - que não é impossível já que conseguiu sonhá-lo.
    Vou adicionar esse filme a minha lista, tks.
    Beijus na testa.

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