E o que é que tem?

— Milena, olha só a roupa daquela moça!
— Ãh, Júlia?
— Lá, ó, Milena... Tá vendo? Aquela moça na fila do banco, na frente do cara gordão. Olha só a roupa dela!
— Tá, já vi. O que é que tem?
— Como assim, o que é que tem? Ela tá usando meia calça com chinelo, saia de crochê e blusa de moletom!
— E o que é que tem?
— Ai, Milena, pelo amor de Deus! “Tem” que ela tá ridícula! Sabe, eu fico impressionada com como certas pessoas não têm noção das coisas... Meia calça com chinelo, onde já se viu... Que falta de elegância... E a figura tá se achando, ainda!
— Se achando? Não entendi... Ela só tá na fila do banco, e praticamente nem vi ela se mexer desde que você apontou na direção dela...
— Não viu porque não presta atenção. Ela já jogou aquele cabelo pra trás umas trezentas vezes!
— E o que é que tem jogar o cabelo pra trás?
— “Que é que tem”, “Que é que tem”... O cabelo dela nem é bonito!
— Então só quem tem o cabelo bonito pode jogar ele pra trás?
Não, Milena, não é isso... Que droga, às vezes nem dá pra acreditar que nós duas somos da mesma família! Você tem muito pra aprender com a vida ainda, maninha... Sua inocência não te permite ver o que eu vejo. Aposto trinta reais que, quando você entrar no sexto ano, vai entender como é o mundo real e concordar comigo quando eu digo que alguém tá se achando. Mas, voltando à sua pergunta, o que me irrita naquela mulher é o jeito como ela joga o cabelo pra trás... Com ar de quem se acha a gostosona do bairro. Até parece que ninguém sabe que ela faz tantas escovas por mês que tá até endividada no salão de beleza da esquina! Vai ver que veio no banco fazer um empréstimo pra pagar as contas...
— E como é que você sabe disso tudo?
— Ah, cala a boca, Milena.
— Nossa, Ju, eu vou contar pra mamãe! Espera só a gente chegar em casa!
Argh! Desculpa.
— Tá desculpada.
— Que bom.
— Júlia, tá vendo aquela mulher do outro lado da rua?
— Que mulher?
— Na fila do banco, na frente do cara simpático de camisa listrada... Viu? Aquela mulher que tá usando um monte de cores e parece que acordou de bom humor com a vida?
— Você tá apontando pra moça brega na frente do cara gordão, Milena. Mas tudo bem, prossiga.
— Ela gosta de bolo de baunilha com cobertura de chocolate.
— Oi?
Ela gosta de bolo de baunilha com cobertura de chocolate. E tem um namorado flautista. Participa de um grupo de oração na igreja que frequenta, acredita no futuro do país e hoje veio até o banco pra depositar parte do seu salário pra a avó doente, que mora no Recife.
— Quê? Como você sabe?
— Ué, não é assim que funciona?
— Funciona o quê?
— Esse jogo, de apontar pra uma pessoa e fingir que sabemos tudo sobre ela através de suas roupas e trejeitos. Até que é bem divertido...
— Quer saber? Vamos voltar pra casa, Milena. Já tô perdendo a paciência com você.

10 comentários:

  1. "Recife" hahaha ♥ Enfim, nada em relação a Recife vem ao caso no momento.. Eu simplesmente adorei esse conto! Caramba, algumas pessoas são exatamente assim e isso me irrita tanto, nossa. Você conseguiu descrever boa parte da sociedade feminina em um simples conto. Boa parte da sociedade feminina julga as outras por roupa, cabelo, aparência.. Os homens também não ficam muito atrás, mas as mulheres? Puff! Ganham de lavada.
    Eu acho tão ridículo, idiota e infantil quem julga os outros sem nem ao menos conhecer, sabe? E eu juro por qualquer coisa que cê quiser, que quando eu falo de alguém que não conheço, eu fico com a consciência pesada. Sério. Eu simplesmente não consigo chegar e falar "credo, essa pessoa parece ser isso e aquilo". Se eu penso? Óbvio que penso! Estaria sendo hipócrita se falasse que não. Todos pensamos algo sobre a aparência -e até sobre outras coisas- de outra pessoa, mesmo que não seja por mal. Porém, eu acho ridículo julgar. E é exatamente assim que funciona. A pessoa olha uma outra pessoa, aponta o dedo e quer adivinhar tudo sobre ela, como se fosse uma cartomante, sabe? Como se tivesse uma bola de cristal -não que eu acredite nessas coisas- e eu acho engraçado isso..
    Mas uma coisas que todos deveriam lembrar, é: Enquanto você aponta um dedo, tem dois sendo apontados para você.

    Enfim, simplesmente adorei!

    P.S: Cê tem tumblr? Acho que esse conto seria ótimo para ser postado no tumblr, eu mesma reblogaria várias e várias vezes!


    vitoriando.com

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    1. Poxa, não tenho tumblr, acredita? Na verdade também não tenho Facebook próprio (só um fake bem fake para controlar minha fan page quase falida), nem Twitter, nem Instagran... Sou uma perfeita esquisita com redes sociais, haha, passo longe da maioria...

      p.s: de qualquer forma, fiquei feliz de saber que você reblogaria o texto ♥

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  2. Perfeito Larissa.. e como a gente vê isso.. o chamado olho gordo.. inveja.. é sempre fácil olhar os outros, julgar.. e será que quem faz isso é o perfeito..
    lebro-me que anos atrás deixe a barba crescer, 3 meses sem cortar.. só para ver a reação das pessoas.. quando eu entrava no banco com aquela barba, cabelos soltos ,camisa de banda, all star e calça jeans rasgada no joelho eu te digo que tinha gente que tremia na base srs
    as pessoas são mediocres sendo que achavam que eu era tudo, sei lá o que.. drogado, e por ai vai.. eu nunca coloquei um cigarro na boca.. não tenho carro pra desfilar, gosto de rock como tu.. mas sempre tem os melhores né srs só na aparência pq dentro são vazios.. bjs e uma linda noite

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  3. Ai, gente! Tenho amigas exatamente assim! É irritante ouvir alguém falando mal do jeito como uma pessoa está se vestindo.
    Beijos!
    Rafa, do d-atilografando.blogspot.com

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  4. Ok, esse texto acabou de ganhar um espaço no meu "Evernote". Cara adorei. As pessoas tem essa mania de apontar para você e achar que sabe tudo, mesmo sem te conhecer. E não vou ser hipócrita, Já fiz isso sim, afinal sou humana. Mas aprendi a não querer saber mais do que sei. Adorei o ponto de vista desse texto, uma conversa simples que tem um significado enorme.
    Beijos...

    Foreverteens2.blogspot.com

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  5. Esse post é tão legal, com esse diálogo "simples" (e ao mesmo tempo complicado, ai Senhor, que controverso), mostrou o cotidiano de uma forma engraçada e leve, principalmente a penúltima (e a última!) fala de Milena, "Esse jogo, de apontar pra uma pessoa e fingir que sabemos tudo sobre ela através de suas roupas e trejeitos". Acho que fazer uma crítica a sociedade, mesmo que de forma leve, deve ter sido seu objetivo com esse conto, e mesmo que não tenha sido, conseguiu alcança-lo. Outra coisa que achei interessante foi o modo como é exposto que uma pessoa pode ser completamente diferente ao mesmo tempo mediante dois pontos de vista.
    "Não, Milena, não é isso!" De fato, não é, mas é o que Júlia faz parecer ao falar... Só penso uma coisa: coitada da mulher, ela só deve estar com calor, oxe (eu jogo o cabelo pra trás o tempo todo e ele é ruim, e aí, como fica?).

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  6. Pura realidade, e uma realidade gritante não é? É triste como algumas pessoas julgam as outras por uma simples roupa, ou qualquer outra coisa do tipo, se a conhecer, e é tão chato porque a pessoa nem se quer pode se defender. Mas o que importa? O principal nesta vida é ser feliz, e até com meia e chinelo de dedo *-* Miiil bejuuuus! *-*

    dallyse.blogspot.com.br

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  7. rsrs

    admito que esse texto ficou engraçado, e que todos sentiram uma familiaridade com ele, seja por já ter passado por esse tipo de julgamento ou por estar presente diante de um.

    a ideia que tu tentou passar com o conto ficou nítida como água sem falar que suas palavras ficaram muito bem dispostas. amei o conto
    *-*

    isso aí,
    xoxoxoxo
    UGDU

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  8. Cara, esse conto foi lindo! Faz tempo que não venho aqui ler alguma coisa que você escreveu, credo, como me arrependo disso agora HAUSHAHSUAHSUA
    Criei antipatia com a Júlia na segunda linha já! >< Todo mundo conhece alguém assim, e quando alguém age desse jeito, já me irrita... Tinha me esquecido como você escreve bem, Lari!

    blog-espelhodigital.blogspot.com

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  9. Cara que demais! Não sou nenhum pouco boa em diálogos, porque muitas vezes não parecem verdadeiros ou bons, mas o seu ficou demais! O final ficou super engraçado.
    http://viagem-a-terra-do-nunca.blogspot.com.br/

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