Com medo do impacto

— Lá! Lá embaixo, está vendo? — perguntei.

— Não — respondeu prontamente Srta. Inse.

— Dessa distância, você não conseguirá distinguir nada mesmo, oras! Venha aqui perto. Na beiradinha. Não tem perigo! Se você tropeçar, eu a seguro.

— Eu não confio em você.

— É, eu sei — concordei, suspirando. — Só não sei por que insisto em ter alguma esperança quanto a você. Afinal, seu sobrenome é "Gurança".

— Ah, os Gurança! — ressaltou ela com um sorriso, parecendo aumentar com o orgulho que de repente a tomou — Somos assim mesmo, quase todos da família (com exceção de Sê Gurança, que é uma desvirtuada). Não confiamos em nada nem ninguém, não admiramos positivismos, não nos deixamos influenciar por elogios. Por isso, vivemos mais do que qualquer outro abobalhado que se acha muito esperto só porque se sente bem ao olhar no espelho ou não teme tropeçar, cair e quebrar o pescoço ao correr atrás de um sonho.

— Vocês são trágicos e insensíveis à realidade, isso sim, Srta. Inse Gurança.

— É aí que você se engana, minha amiga. Compreendemos a realidade mais do que qualquer outro. A diferença é que a enxergamos como realmente é, e não como ela poderia ser. 

— Então, se viver mais significa se privar dos desejos e da imaginação, prefiro morrer agora mesmo.

— Não do meu lado. Aliás, você está se distanciando. Por que não volta para cá? Eu é que não vou até aí. Não desperdice a chance de voltar, heim... Lembre-se de que, ao meu lado, ninguém se sente forte para morrer. 

— Tampouco determinado a viver.

— Você não sabe o que diz. Tudo bem, está aprendendo. Ainda não é insegura o bastante. 

— Não me sinto segura para ser insegura o bastante. Esse é o problema de aceitar sua companhia. Nunca posso me sentir plena, seja pelo lado bom ou pelo lado ruim. É uma incerteza desesperadora, porque não acaba com uma decisão. Não com uma decisão própria, pelo menos. Quase tudo depende dos outros. O que os outros vão dizer, o que os outros vão pensar. Viver ao seu lado é como me privar de mim mesma.

— Não seja estúpida. Você aprendeu muita coisa comigo.

— Como...?

— Como que se guiar por impulsos nunca deixa boas lembranças. Você sabe as burradas que fez. Você sabe como não dá para voltar atrás e consertar o que poderia ser evitado com um pouco de bom senso.

— Eu não me arrependo das coisas que fiz. Claro que nem todas as minhas decisões, sejam repentinas ou repensadas, foram boas decisões. Mas as que me tiraram da minha zona de conforto me fizeram aprender mais sobre mim mesma, ao passo que as que me impediram de arriscar por puro receio só me deram um começo de depressão, ao fazer com que eu ficasse em casa imaginando o que teria acontecido se eu tivesse saído pela porta da frente.

— Se tivesse saído pela porta da frente, teria morrido atropelada.

— Então eu sairia pela porta dos fundos.

— E o Rottweiler da vizinha pularia o muro e tentaria arrancar sua perna.

— Eu poderia pular as janelas.

— Você iria receber uma bala perdida na testa ao colocar o rosto entre as cortinas.

— O quê? Eu nunca sequer ouvi um tiroteio na minha cidade!

— Nunca se sabe quando ouvirá pela primeira vez. É melhor prevenir do que remediar, diz o ditado.

— Ah, esquece. Mas e a chaminé? Eu poderia fugir pela chaminé!

— Na sua casa não tem chaminé. E pare com essa teimosia infantil. 

— Só paro quando você vier até aqui, na beiradinha.

— Por que você cismou tanto com esse poço e por que quer que eu vá até aí sondá-lo? Não me interessa o que vem além da escuridão. 

— Então... Então eu vou pular.

Subi na beira do poço e olhei de esguelha para Srta. Inse Gurança, observando sua expressão perplexa. Sorri de um jeito cínico e, enquanto simulava a preparação para um mergulho, disse teatralmente:

— Até nunca mais, Srta. Inse Gurança!

Ela exclamou um “Nããão!” tão alto e prolongado que os ecos que o repetiram, do fundo do poço, pareceram durar uma eternidade. Mas claro que era apenas uma impressão. A situação foi inventada. O poço não existia. E eu jamais ousaria pensar em me jogar nele, de qualquer forma.

Contudo, a partir daquele momento simbólico, minha “amiga” de tantos anos foi embora. Pulou no poço em meu lugar.

Foi melhor para ela. Já estava na hora de Srta. Inse Gurança descobrir o que vinha além da escuridão, e aprender que vale mais encarar as escolhas e as consequências que a vida põe nos nossos ombros do que as evitar eternamente, com medo do impacto que irão gerar em pessoas que, por vezes, nem se importam.

Foi melhor para mim, também. E como foi...

11 comentários:

  1. Talvez eu precise me jogar nesse poço também, porque olha...
    A insegurança é uma pedra no caminho mesmo. Acho que todos deveriam ser mais seguros de si e largar essa senhorita "Inse Gurança". Enfim, texto maravilhoso (como sempre), Lari! ♥ Beijos.

    Waking ♡

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  2. Esse texto me fez refletir muito, já está na hora de me jogar e parar de ouvir a dona Inse Gurança. E que família essa dela, hein? Acho que tenho algum lanço sanguíneo com eles, porque meus medos foram escritos nessa parte sobre sair pela porta da frente, dos fundos, pela janela... Ótimo texto ^^
    Beijos ♥ b-lackstar.blogspot.com

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  3. Boa tarde Larissa.. uma busca perfeita das duas que sempre fazem questão de estar e não estar ao nosso lado.
    devido a crenças na nossa jovial idade impostas quase sempre pelos nossos pais e mídias.. nos deixamos dominar por medos.. não caminhamos com nossas próprias pernas e isso faz com que nos dias de hj a solidão predomine e muitos acabam cometendo o terrível ato do suicidio.. temos que soltar tudo e apenas nos ligarmos com a fonte.. quem vibra alto esta sempre seguro, protegido e é como um imã que atrai só o positivo.. bjs e um excelente dia moça querida

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  4. Srta. Inse Gurança continua seguindo os meus passos. Eu até que tentei jogá-la no poço também, mas ela nunca caiu no truque. Juro que tento afastá-la de vez todos os dias, mas não consigo. Espero que um dia eu seja mais esperta e finalmente consiga.
    Um ótimo e muito criativo texto, Lari. Beijo!
    86Diamonds

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  5. Eu simplesmente amo quando você faz isso, Lari. Trás coisas abstratas (sentimentos, etc) para nossa realidade de maneira ilusória! Eu realmente amo. Você sabe "brincar" muito bem com as palavras, e é impossível não se admirar.
    Beijos, Própria Mente

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  6. Eu estava lendo seu blog pela newsletter ( que você colocou aí do lado a meu pedido, MUITO obrigado) quando me deparo com este texto lindo. PERFEITO. Muito obrigado, é apenas o que eu tenho a dizer =).

    memorias-de-leitura.blogspot.com

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  7. A Inês compartilhou comigo esse texto. Eu adorei... Achei realmente perfeito e me fez refletir sobre as minhas inseguranças... são tantas...

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  8. Mais uma vez, um conto/texto cheio de reflexões, hein, dona Lari. Já falei o quanto acho incrível sua forma de envolver assuntos reais e palpáveis assim num enredo simples e despretensioso? Você simplesmente sabe como encaixar as ideias e inspirações de uma forma muito confiante, gosto muito de lê-los por isso (também). Nesse caso em especial, foi um ótimo retrato do que é essa chata dona Inse Gurança; ela atrapalha demais os nossos objetivos, mesmo. O melhor é mandar ela ir embora e viver a vida de verdade - bom senso sempre, claro, mas, dessa vez, sem um receio constante de insegurança em tudo que existe.
    Muitos beijos!

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  9. É muito difícil lidar com as inseguranças, o medo, mas se pararmos e colocarmos os ideais na frente perceberemos que não iremos nos arrepender. Gosto do seu jeito doce de escrever.

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  10. Como sempre, seus textos me inspiram e me dão uma lição de moral e tanto! Preciso achar este poço urgente, e me jogar lá ou até mesmo empurrar a minha amiga (de longa data) Srta. Inse Gurança. Texto maravilhoso, como sempre Lari ♥ parabéns!

    road to infinity

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  11. Oii, Lari!
    Como sempre, mais um texto lindo seu... <3 E que lição...
    Tão difícil é lidar com a insegurança, mas pior ainda é quando não lutamos contra ela.
    Todo mundo deveria saber a hora de se jogar no poço, e fazer isso, pelo menos uma vez na vida :3
    Beijoo!!

    http://penny-lane-blog.blogspot.com.br/

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