O cardápio de sempre

Maria Inês se sentou na cadeira de estofado azul, próxima ao quadro com o perfil sépia de John Lennon e ao vaso de margaridas artificiais que compunham seu lugar preferido na lanchonete — que ela frequentava desde… hmmm, desde muito tempo. Empurrou o corpo para perto da mesa como quem quer examinar o cardápio, mas, ao invés disso, ela deu um sinal direto para Lorrainne Joanne, a mesma garçonete de nome esquisito que a atendia todas as vezes que ia ali. Esta mal se aproximou e já ouviu o pedido nada surpreendente: “O de sempre”.

— Tem preferência quanto ao de sempre? — perguntou L. Joanne, com as linhas de expressão acentuadas e um sorriso que pendia entre o simpático e o sinistramente misterioso.

— Não entendo o quer dizer — respondeu Maria Inês, confusa.

— Então sugiro que olhe o menu do dia.

— Não é preciso, obrigada. Quero o de sempre.

Assim que a garçonete se retirou em direção à cozinha, Maria Inês colocou-se a tamborilar com os dedos na mesa, pensativa. O que L. Joanne quisera dizer com “Preferência quanto ao de sempre”? Que pergunta mais maluca! Vai ver ela estava começando a caducar… Uma senhorinha na idade dela andando de um lado para outro na lanchonete, a anotar pedidos em seu bloquinho de folhas amareladas o dia todo, já devia estar com os miolos meio vencidos.

De qualquer forma, L. Joanne era muito ativa, e estava demorando mais do que o normal para trazer seu sanduíche de frango grelhado. Quando o tamborilar de dedos perdeu a graça, então, Maria Inês resolveu abrir o cardápio sobre a mesa, como forma de distração.

Para sua surpresa, a lista que se materializou diante de seus olhos não consistia em opções de lanches, refrescos e sobremesas. Numa caligrafia graciosa, estava escrito:

O CARDÁPIO DE SEMPRE

 Reclamar do curso de enfermagem durante todas as aulas do mesmo. Preço: desperdício de dinheiro, deixando de absorver o melhor do ensino com bocejos e expressões de tédio, e desperdício de tempo, permanecendo na zona de conforto ao invés de buscar a profissionalização numa área pela qual realmente se interesse.

 Passar na casa do namorado no sábado, às 21h30, como manda o esquema. Preço: um relacionamento que, se não passar de monótono para extremamente chato, vai evoluir para simplesmente desastroso ao terminar mal para um dos dois. Provavelmente para você. Porque ele já propôs programas diferentes, quebras de rotina, encontros inusitados e até surpresas agradáveis. Mas você sempre deixou bem claro que era uma mulher ocupada, e mulheres ocupadas precisam de planejamento, agendas organizadas e horários fixos.

♥ Prometer a si mesma que vai começar uma dieta na segunda-feira que vem (em toda segunda-feira que chega). Preço: frustração ao se olhar no espelho depois de comer três pedaços de pizza ou uma barra grande de chocolate. Porque você é inteligente o suficiente para saber que não precisa de um corpo de modelo para se sentir bonita (afinal, você já é bonita, não é mesmo?), mas vive dizendo que perder uns dois quilinhos para caber naquele vestido de cetim outra vez a faria se sentir feliz.

 Adiar a viagem para a Ásia mesmo quando há plena possibilidade de fazê-la. Preço: o adiamento de respirar ares novos, conhecer gente interessante, fotografar momentos e colecionar lembranças.

 Temer o novo, aceitar imposições, ignorar oportunidades, nunca arriscar. Preço: arrependimento (sem justificativa nem complemento).

Quase rasgou o cardápio ao fechá-lo de uma vez, quando a garçonete reapareceu à sua frente com seu pedido em mãos. Mantendo o mesmo sorriso intrigante, L. Joanne disse:

— Aqui está seu sanduíche, querida — e pousou um prato ao lado do cardápio recém-fechado.

Maria Inês a encarou por alguns instantes, cheia de perguntas para fazer e vazia de coragem para verbalizar uma sequer. Então, simplesmente mordiscou o sanduíche, sem tirar os olhos dela. O gosto estava estranho… Não um estranho ruim, mas um estranho incomum.

— O sanduíche… — começou Maria Inês — O sanduíche não é de frango grelhado.

— Não, não é — concordou L. Joanne. — Por acaso você não gostou?

— Não é isso, o sabor é bom. Delicioso, na verdade. Só não consigo identificá-lo… É diferente de tudo o que já provei. Não faço a menor ideia de que gosto seja este!

— É gosto de mudança, querida — respondeu L. Joanne. — Por que não prova mais?


Postei originalmente no blog VáLendo, mas, como o mesmo parece não estar mais aberto ao público, eu trouxe o texto para cá.

6 comentários:

  1. Bom dia Larissa.. quando leio o que escreves vejo a facilidade que tens em descrever fatos, situações e cenários.. eu tenho um livro em minha cabeça mas to apanhando para por ele no papel.. são visões muito belas, só me falta a agilidade que tu tens, mas ainda chego lá bjs e até sempre

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  2. Você sabe mesmo ser criativa! Gostei do objetivo de suas palavras, digo, o que elas quiseram dizer. E aposto que esse texto "conversou" com muita gente, afinal, somos medrosos quando o assunto é "mudança", e isso não é legal. Mais uma vez, parabéns. <3

    uma-quase-perfeita.blogspot.com

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  3. Criatividade define você, sabia Lari? Amei este conto <3 e acho que ele diz totalmente a verdade, as vezes eu mesma caio na monotonia e perco a vontade de sair da zona de conforto por medo de arriscar coisas novas, este texto meio que abriu meus olhos hihi :) você escreve muito bem, parabéns ^^'

    road to infinity

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  4. "Sou uma poesia incompleta colecionando versos perdidos por aí..." Imagina se fosse completa, então! :O Que lindo, Lari! Eu li a continuação e me surpreendi! :3 É tão motivador, sabe? Me fez sorrir, me fez muito bem ler esse texto antes de dormir! <3
    PS.: Na minha cabeça, o cardápio teria braços, olhos, cérebros... Coisas assim de serial killers... :p Acho que você me acostumou mal com Perto do Nada! haushuahsahs'
    Sel do Jovens Gordinhas

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  5. Esses contos *---------*
    Surpreendo-me cada vez mais todas as vezes em que eu venho aqui e encontro um conto diferente, sendo que cada um deles me puxa até o final até o momento em que eu termino e fico imaginando como deve ser incrível escrever algo assim. Simplesmente adorei, demais, e me identifiquei também, talvez eu esteja precisando sentir o gosto da mudança.
    XOXO
    cronicasdeumlunatico.blogspot.com

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  6. Surreal esse cardápio. Adorei a lição que ela tomou. Foi quase um tapa na cara. Mas de leve. Não sei bem classificar a sua literatura. Só sei que gosto da sensação que me dá ao ler. E os plot twists de alguns finais são geniais. {Emilie Escreve}

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