O baque do livro

O marasmo reinava pela estrada, e eu andava sozinha por ela. Os pés, trôpegos e desorientados... E as pernas, ameaçando desabar meu corpo a qualquer momento. Mesmo exausta, eu prosseguia. Vestida de noiva e arrastando a grinalda pela poeira. Difícil dizer se eu buscava um altar ou sentido para tudo aquilo.

Quando eu parecia prestes a desmaiar, ouvi um som rastejante, vindo de dentro do pasto seco que acompanhava a estrada pela direita. Sobressaltei-me, alerta. Outro barulho, oco e sombrio, pareceu vir do fundo do precipício que se abria à esquerda. Gelei. Na verdade, congelei, com o rosto estampado de medo e os olhos fechados com força.

Até que veio mais um barulho, nítido e próximo; um latido. Tornei a abrir os olhos e deparei-me com um cachorro cinzento sentado no meio da estrada, a seis metros de distância de mim. Encarou-me por alguns segundos, com um certo mistério no olhar, e tornou a seguir seu caminho. Tentei acompanhá-lo tão rápido quanto podia aguentar, mas logo ele sumiu de vista... para logo reaparecer. Sentado, encarando-me, na mesma posição inicial. Pronto para chamar minha atenção e sair correndo outra vez. Fez isso durante um bom tempo, guiando-me pelas curvas e entre ventos que se cruzavam em um sussurro sinistro.

Chegando no ponto aonde queria me levar desde o início, o cãozinho desapareceu. Deixou-me sozinha, prostrada diante de um crucifixo fincado na terra, que batia na altura dos meus joelhos e parecia apodrecido pelos séculos. Arquei-me um pouco, a fim de procurar uma descrição na madeira e descobrir o que estava enterrado ali.

Não tive tempo de descobrir, pois novo estrondo desfez todo aquele cenário que parecia tão bem materializado ao meu redor. Não se tratava de um som rastejante ou um eco sombrio. Tampouco se tratava de um latido. Na verdade, não passava do baque do livro, que pendia aberto no meu colo desde que eu havia adormecido, contra o chão. As páginas não se reviraram na queda, então, quando me agachei para apanhá-lo, ainda pude ler o trecho grifado que originara o devaneio do qual eu acabara de acordar:

Casou-se com a realidade de bom grado, porque era o certo a se fazer. Cumpriu regras, seguiu conselhos, enfrentou medos. Caminhou confiante por aquela longa estrada, a que chamam de amadurecimento. Seu único erro, durante todo o processo, foi enterrar seus sonhos, ainda mais quando estes pareciam tão vivos. Assim, não foi feliz. E como poderia?

8 comentários:

  1. Que final! Não sei porque, mas esse conto me fez lembra do curta metragem chamado O Poeta Dinamarquês, que cita uma história em que uma menina é destinada a casar com um, mas que desiste desse casamento por amor a outro. Todas as responsabilidades da protagonista do seu conto me fizeram lembrar do destino da protagonista citada no curta metragem (que com certeza eu indico a você).
    Muito bom!
    xo, Nicolle

    Dias e Flores

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    1. E aceitarei de bom grado a indicação, porque adoro curtas-metragens e o título (e enredo) deste me deixou muito curiosa!

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  2. Ai menina, eu e toda minha intensidade pensando que o tal baque seria um homem, também vestido de noivo no meio da floresta. Daí adivinha ? Felizes para sempre -n

    Tá bom, parei.
    Mas que texto lindo. Oque acontece algumas vezes com pessoas (tipo... eu), lendo um livro, parar pra refletir, acabar dormindo e dar continuidade no livro, porém do seu jeito. Quem nunca ? Vocês nunca ? Ah...

    Beijos ♡ Waking

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  3. Quanto tempo sem vir aqui, seu blog continua lindo e seus textos como sempre perfeitos né dona Lari. <3

    http://senhoritapriscila.blogspot.com
    Curti a fan page? (www)
    @priscilafrr,
    beijo.

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  4. Nossa muito bom o seu texto, parabéns!

    Seguindo seu blog, retribui?
    http://www.wondermarcelo.blogspot.com.br/

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  5. Você escreve muito bem. No final era tudo um sonho, juro que pensei que era realidade.
    http://s2garotasonhadora.blogspot.pt/

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  6. Que lindo! Pensei que seria um final bem de suspense à "La Perto do Nada", mas por ter sido um sonho, se tornou um texto lindo! :3 Eu nunca sonhei com algo sobre livos, infelizmente.
    (nossa, esse comentário ficou nada com nada, desculpa, hehe. Tem dias que comento um texto e em outros não sei o que comentar, mas li e amei o texto, é o que importa, eu acho)
    Bjo, Sel ;* | Jovens Gordinhas ♥

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  7. Cara, me fez lembrar realmente do Poeta Dinamarquês, no qual ela desiste de um casamento com a pessoa que não ama, fazendo o melhor, claro. u.u Como você disse era o certo a se fazer. ♥

    http://dallyse.blogspot.com.br

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