Contraditório clichê diferente

 Eu posso me sentar aqui?

— Pode.

Ele se sentou. Eu poderia descrevê-lo, assim como poderia descrever todas as pessoas que estavam naquele ônibus, se não fosse o fato de que éramos passageiros e estávamos somente de passagem na vida uns dos outros também. Mas eu me lembraria um pouco dele alguns anos mais tarde... Dele e da sua insistente mania de fazer perguntas. A primeira delas foi:

— Pollyanna?

Retirei um dos fones do ouvido, para não parecer mal-educada, e respondi:

 Não, Larissa. Ou Lari, se preferir.

Ele começou a rir. E eu a sorrir, encabulada, enquanto franzia um pouco o cenho para demonstrar que não estava entendendo nada.

 Claro, e é um prazer conhecê-la, mas eu estava perguntando sobre o livro que está em suas mãos...  esclareceu, com uma expressão brincalhona.

 Ah, sim, o livro é Pollyanna  confirmei enquanto sentia minhas bochechas ficando vermelhas, como sempre acontecia quando alguma coisa, mesmo boba, me constrangia.  Às vezes eu gosto de relê-lo para me lembrar de como se joga o Jogo do Contente.

 E como se joga?

 Você quer um exemplo?

 Quero.

 Então vamos lá... Estou num ônibus cheio de pessoas que não levantam os olhos dos visores de seus celulares nem para dizer um "Oi!" ou procurarem um pouco de poesia no cotidiano visto da janela. Apesar da falta do verdadeiro calor humano, a sensação térmica aqui ultrapassa os 30ºC. Além disso, estou a caminho da escola, prestes a fazer uma prova sobre aquelas exatas que não me interessam em nada. Então, o jogo entra agora: mesmo que meu desejo fosse estar no sofá, envolta por um cobertor (o clima estaria mais frio) e uma iluminação cinzenta devido à chuva (estaria chovendo), enquanto assistisse a um filme de romance ou a uma série de terror...

 Um filme de romance ou uma série de terror?  ele me interrompeu, com uma expressão de descrença.

 É. Mas o filme também pode ser de aventura. Prosseguindo, mesmo que nada esteja acontecendo da forma que eu gostaria que estivesse acontecendo, eu devo ficar feliz porque...  lancei o olhar ao redor, à procura de uma visão otimista qualquer. Como nada parecia inspirador o suficiente, acabei dizendo a resposta mais animadora e estúpida que veio à minha mente  Sei lá, porque tem um cara interessante sentado ao meu lado.

 Ual, isso foi uma cantada?

 Não. Você pediu um exemplo, e não uma cantada.

Ele sorriu. Sorri também. E recoloquei o fone. E voltei à leitura.

 O que você está ouvindo?  perguntou depois de certo tempo.

 Metallica  respondi.

Ele riu quase da mesma forma que riu quando questionou o título do livro que eu estava lendo. A diferença é que, dessa vez, ria com um quê de deboche. Acho que era porque estava escrito Metallica na camiseta dele. Vai ver ele pensou que eu estava tentando impressionar, com o que seria, pelo menos na sua cabeça, uma segunda cantada.

 Desculpe-me,  disse ele  eu não quis parecer grosso. É que eu jamais imaginaria que você gostasse desse tipo de som mais... hmm, pesado. Quer dizer, você tem flores estampadas no vestido e está lendo um livro com uma capa tão...

 Fofa? Pois é, a capa é fofa. E a história também. Acontece que, em geral, a capa não diz muita coisa sobre o conteúdo. Você já teve ter ouvido isso  respondi devagar e sem emoção alguma na voz.

 Ei, foi mau, eu não quis ofender.

 E não ofendeu. As pessoas se confundem com a minha personalidade o tempo todo. Não que eu seja “duas caras”. Na verdade, eu diria que sou inconstante. Mesmo não gostando de ter que ficar escolhendo entre os extremos o tempo todo. Porque, entre o 8 ou 80, sabe, prefiro ser logo os dois. Ir do folk ao heavy metal, do floral ao total black, do romance ao terror. Ou, então, misturar tudo de uma vez. Não é tão estranho quanto parece, apenas... desorganizado. Enfim, acho que sou um "contraditório clichê diferente".

Ele assentiu, mesmo parecendo totalmente confuso. Depois de um bom tempo, comentou:

 Pensando bem, acho que eu não sou tão interessante quanto você disse que eu sou. Já faz meia hora que nos conhecemos e, até agora, é como se só eu tivesse feito as perguntas.

 Não é bem assim  disse eu.  Você se lembra do que eu falei sobre as capas dos livros agora há pouco? E do que falei do conteúdo? Então, sobre este último... Ele vai se revelando a partir do momento em que vamos virando as páginas. Página por página, vamos absorvendo sua essência. Eu gosto que seja assim com as pessoas. Que elas vão se revelando e nos surpreendendo devagar, conquistando-nos gradativamente e cada vez mais.

— Hmm, e você é sempre filosófica assim?  perguntou, ajeitando-se no banco.

 Rá, nem a pau. Se esta cena estivesse acontecendo mesmo, eu daria respostas idiotas e incompletas para cada pergunta que você me fizesse, e depois me sentiria mal pela falta de criatividade delas. O que talvez você não saiba é que isto aqui é um devaneio, e nos devaneios cada fala é cuidadosamente planejada. Se contrário fosse, não haveria a menor graça.

— Aaaaah, entendi... Mas... e depois? O que acontecerá com este devaneio?

 Ah, o mesmo que acontece com todos os outros. Vou misturá-lo com algumas pitadas de vivência e sentimento, e transformá-lo em palavras escritas... São velhos hábitos que nunca mudam.


O nome da protagonista igual ao meu não foi coincidência, nem narcisismo, nem nada disso. A protagonista sou eu porque este foi o texto que mantive no meu perfil do blog por um bom tempo... 

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