É como de fato fazer uma viagem no tempo


Quando caminho pelas ruas da minha cidade, posso distinguir dentre as casas uma ou outra que guarda em sua estrutura um pouco de décadas passadas, como grandes janelas de madeira e as lembranças que o vento ainda não levou. Mas, como eu disse, apenas uma ou outra  que, inclusive, passam despercebidas pela constantemente ocupada, indiferente e distraída maioria.


Agora, conhecer cidades históricas é como, de fato, fazer uma viagem no tempo. Séculos atrás. As esquinas sempre reservam uma surpresa, um detalhe e a materialização de tantas aulas teóricas sobre as origens do Brasil e da sociedade que nele habita. As casas, em geral, preservam as fachadas originais, e é fácil imaginar as ruas cobertas por pedras, que hoje compõem parte de todo um roteiro turístico, sendo pisadas pelos pés cuidados dos que se sentavam em tronos e pelos pés descalços dos que dormiam em senzalas.

São João del-Rei. Primeira igreja a ser visitada: pague R$2,00 e entre. Pago. Entro. Olho ao redor, num misto de fascínio e desprezo. Fascínio porque cada canto é um convite para o olhar, e você olha enquanto também é observado por dezenas de santos e anjos feitos por artistas da época. Desprezo porque você sabe que cada canto também estampa ambição e ignorância. Suor e sangue. 


Sentada num dos bancos da frente, eu conversava sobre isso com meu irmão. Sobre como parece impossível rezar em um lugar que nasceu do sofrimento de muitos para satisfazer os caprichos de poucos — situação que contraria todos os conceitos de um verdadeiro cristão , e um lugar onde é tão fácil se distrair com o redor e esquecer o motivo da reza. Ele concordou. E contou-me que as igrejas eram construídas sobre as minas de ouro, para proteger e esconder as mesmas. Belo pretexto para erguer uma Casa do Senhor, não? Não. Prosseguindo, disse também que os nobres, além de terem o privilégio de assistirem à missa das melhores posições, em espécies de sacadas laterais que funcionavam como camarotes — enquanto os "normais" ficavam em lugares normais, e os escravos eram obrigados a acompanhar a cerimônia do lado de fora , eram enterrados no chão abaixo do assoalho da igreja, quando faleciam. Não demorou muito para que esse costume estranho fosse abolido, afinal pessoas em decomposição não têm o melhor aroma do mundo.

Não me lembro se ainda estávamos falando dos mortos quando meu irmão cutucou meu ombro e apontou uma direção. Uma direção que dava diretamente para a porta posicionada ao meu lado, e esta, OH, MEU DEUS, estava se abrindo sozinha — quando, meio segundo atrás, eu poderia jurar que ela estava trancada! Olhei para ele, olhei para porta. Para ele e para a porta. Esta, devagar e com um rangido, se abria completamente. Exclamo: “Por que isso tem que acontecer logo do meu lado?”, e ele ri: “Você criticou tanto esta igreja que vai ver alguma alma está querendo arrastar você lá para baixo”. Virei-me novamente para o espaço revelado pela porta (agora aberta), esperando ver um cidadão que justificasse o movimento, mas atrás dela... havia outra porta, fechada. Ferrou. A fresta desta era pequena demais para ter deixado que a corrente de ar empurrasse aquela, tão pesada, e as outras janelas do ambiente estavam fechadas também. Ferrou de vez. É coisa de outro mundo mesmo. Não consigo sentir medo na hora, porque havia outras pessoas no ambiente e estava de dia, mas as especulações surgem a mil na minha cabeça. Meu irmão, com aquele ar meio nerd de universitário, diz “A Física pode explicar isso”, e eu respondo um “Cala a boca” expressivo que, na verdade, quer dizer: “Ei, deixe-me acreditar que isto aqui é um contato com o além. Não estrague.

Como eu disse, não consegui sentir medo na hora, mas difícil mesmo foi percorrer a escuridão do longo trajeto de meio metro do interruptor do meu quarto até minha cama à noite.


Numa segunda igreja, um rapaz badalava um sino animadamente. Sensação incrível: céu cinzento de chuva, um vento que balançava com força a cortina vermelha da entrada e o som das badaladas imponentes ao fundo. Ual. O tipo de coisa que marca por um motivo qualquer.


Saímos. De São João del-Rei à Tiradentes. Onde você dá glória aos céus por ter optado por coturnos ao invés de sapatilhas, já que morros cheios de gretas altas entre as pedras não faltam, e caminhada também não. Mas esta última vale a pena: você pode ir andando e fotografando. As pedras sobre o chão, o muro feito por escravos, as plaquinhas que ficam no alto das casas, os lampiões que com o tempo conheceram a energia elétrica, as montanhas que compõem o cenário de fundo, o cachorro que está dormindo na escada e mais igrejas, sendo que a última em que entrei, coberta de ouro do teto até o chão, confirmou meu fascínio ao mesmo tempo que aumentava meu desprezo.


Para cada momento basta procurar os melhores ângulos, de forma que as memórias de um dia possam ser transformadas em pixels, e de forma que o esquecimento não as apague nunca mais...


p.s: para quem acredita que minhas memórias transformadas em pixels (vulgo “fotografias”) não estejam dizendo mais do que mil palavras, basta pousar o mouse sobre as mesmas e ler as legendas. Na verdade, ando fazendo isso em todos os posts, mas, para quem não sabia, está aí o aviso 

8 comentários:

  1. Ok, vejo aqui uma oportunidade de continuar a explicação embasado na FÍSICA, que havia começado anteriormente, kkkkk. A porta dava pra um cômodo vazio, úmido e mal iluminado, ou seja, a temperatura estava mais baixa lá dentro do que no calor de meio dia do exterior. Já que a porta se abre para dentro e a pressão interna desse cômodo é menor do que a externa, a atmosfera se encarrega de abrir a porta sem nem um ventinho se quer. Obrigado pela oportunidade, já que tocou em meu nome. aushaushauhsuahsuahsuahsuahsuash

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    1. AH, PÁRA!!! Asuausahsuahs' mas consegue ser insuportável mesmo, viu ♥

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  2. Belíssima as fotos Lari, eu já fui em Tiradentes com a minha escola a dois anos atrás, é belíssimo, gosto de paisagens assim... *-*

    http://dallyse.blogspot.com.br/

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  3. Bellissima as fotos :) Muito bonito ;)

    Adorei seu blog muito lindoo e já estoou seguindo.Retribui por favor www.gabusiek.blogspot.com.

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  4. ~pesquisando no Google Maps~ Ah, meu Deus! Você mora há 223 km de Passa Quatro! Já foi lá? ^^ É meu sonho! Ah, mas pesquisei algumas fotos e dei uma "passeada" no Google por São João Del Rei e sua cidade é tão linda também! Tem umas construções tão lindas!
    Bem, mas indo ao assunto do post, eu achei Tiradentes uma cidade linda. Acho que essas cidades com essas casas e igrejas antigas com história que a gente aprende nos livros de história sempre são interessantes, apesar da história triste por trás, como você mesmo disse. Se eu pudesse, visitaria todas as cidades históricas! :3
    Bjo, Sel ;*

    Jovens Gordinhas

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    1. Ops, acho que eu não me expressei bem no post: na verdade eu passei por Tiradentes e São João del-Rei só de visita, a cidade onde eu moro mesmo se chama Caldas, tem uma população pequenininha e fica em Minas (também), hahaha' Mas respondendo sua pergunta, nunca fui em Passa Quatro, acredita? E se eu pudesse visitaria todas as cidades históricas também!

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  5. Lari, me apaixonei por essa cidade. Belíssimas fotos, e o caso da conversa com seu irmão/ almas puxando e abrindo a porta, eu ri. Imagine, você num'a igreja e portas se abrindo do nada ? Acho que sairia correndo.
    Uma cidade tão linda... acho tão perfeito paisagens assim. Gostaria de visitar um dia esse lugar tão lindo.
    Ô Lari, perdoe-me falar sobre isso, mas eu mudei a url do blog. Agora é: http://wakin-g.blogspot.com.br/
    Desculpa te incomodar com isso e tal ♥ Seu blog tá na elite como J.U

    Beijos ♥ Waking

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  6. Ameeei o post.
    As fotos ficaram belíssimas e eu viajei em suas divagações rs.
    O paralelo entre fascínio e desprezo ficou perfeito e bem o que eu penso.
    Gostei muito de conhecer um pouco de outra cidade através de suas memórias transformadas em pixels rs
    PS: acho que fico sem dormir uma semana depois do seu relato "fantasmagórico" rs

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