Capítulo VII: Eu não estava querendo parecer enxerida

Apesar de que o lugar e a ocasião fossem totalmente inadequados, eu com certeza teria pego no sono se Francisca não tivesse entrado na cozinha de supetão.

— Ué, o que faz aqui sozinha, menina? — perguntou ela, surpresa com minha presença.

— Bem, eu... — dei uma pausa para pensar no que responder — eu só estava querendo pensar um pouco.

— Você parece muito abatida.

— É... a viagem foi longa, e depois ainda teve toda essa situação de hoje... 

— Entendo. Fique tranquila, logo seus amigos aparecem.

— Tomara que sim.

— Escute, eu já vou preparar uma cama para você dormir. Só peço que espere um pouco, pois preciso terminar de esquentar uma sopa e levar para a Dona Olívia o mais rápido possível, aproveitando que a chuva cessou um pouco e...

— Dona Olívia? Quem é Olívia? — perguntei, ignorando toda a fala de Francisca e posicionando-me melhor na cadeira, atitude impulsiva que pareceu dar ênfase à minha ansiedade pela resposta.

— Dona Olívia é minha patroa — respondeu ela.

Por essa eu não esperava. "Como assim, 'patroa'? Por acaso Rafael se casou novamente com uma mulher misteriosa que até agora não deu as caras?" Francisca pareceu ler todas essas perguntas mentais, de certa forma também estampadas na confusão da minha expressão, e apressou-se em esclarecer:

— Dona Olívia é inquilina na fazenda. Mora a pouca distância do casarão, junto com o marido, Senhor Marcos. Eu sou a única empregada da fazenda, então, além de trabalhar para o Senhor Rafael, presto serviços semanais e um ou outro favor a eles também.

Imediatamente me lembrei da “espécie de celeiro” (que agora descobri ser a habitação de alguém) que eu havia visto ao longe, quando cheguei pela manhã. Fazia sentido, mas outra recordação fez com que eu mencionasse:

— Ah, estranho, desde que cheguei Rafael não havia mencionado nenhum dos dois.

— É natural. Que fique entre nós, mas o Senhor Rafael não se dá bem com o Senhor Marcos.

— Não? E por quê? — perguntei, cada vez mais interessada na história.

Ela largou a colher de pau com que mexia a panela de sopa no fogo e virou-se para mim, mordendo os lábios enquanto refletia se devia responder-me ou não. Nesses poucos segundos em que a encarei aguardando pelos motivos, pude reparar melhor em sua aparência física: as marcas em seu rosto pardo denunciavam a idade já avançada. Uns sessenta anos talvez, que em nada influenciavam sua agilidade e capacidade de continuar executando suas tarefas perfeitamente bem. Francisca era corpulenta, tinha uns olhos apagados, usava vestido com meias e, não pude deixar de notar: usava também um bracelete dourado, muito bonito, em um dos pulsos.

— Porque o Senhor Marcos era apaixonado por Celeste — respondeu, por fim, num só fôlego.

Pelo visto, as circunstâncias estavam predestinadas a ficar cada vez mais intrigantes naquele dia.

— Ual... — disse eu, querendo ocupar o silêncio que se seguiu e sem achar nenhuma palavra melhor para tal.

— Agora vamos subir — determinou Francisca, desligando o fogo mesmo que, eu podia jurar, aquela sopa ainda estivesse longe de ficar pronta. — Eu vou preparar um quarto e ver se acho algumas roupas limpas para você usar por esta noite. Sugiro que tome um banho quente enquanto isso, para relaxar um pouco.

Antes que eu pudesse protestar, Francisca evaporou porta afora. Levantei-me da cadeira e segui em seu encalço. Por incrível que pareça, menos pela vontade de tomar um banho quente e mais pela vontade de entender aquele lance de “O Senhor Marcos era apaixonado por Celeste”. Mesmo assim, permaneci em silêncio durante o caminho. Os rapazes ainda estavam na sala, e seria imprudente da minha parte correr o risco de eles ouvirem minha conversa com a empregada.

Quando chegamos finalmente ao nosso destino final, um quarto espaçoso que ficava no andar de baixo, dei-me a liberdade de prosseguir com minhas dúvidas:

— Mas... e Rafael? Desde quando ele sabia que Marcos era apaixonado pela esposa dele?

— Tome, estão aqui uma toalha e uma camisola limpas — disse Francisca, passando-me o conteúdo de suas mãos e ignorando totalmente minhas perguntas.

— Francisca, me desculpe. Eu não estava querendo parecer enxerida, e devo dizer que não estou te enchendo com essas perguntas por pura curiosidade. Só que... você já sabe, Celeste era importante para mim, e isso basta para justificar qualquer vontade que venha de minha parte de ao menos entender o que aconteceu com ela.

— Acho que você tem preocupações maiores agora, menina.

— Eu sei... — concordei, sentindo-me culpada — Vanessa e Paulo.

— Na verdade, eu ia dizer que você devia se preocupar em ter uma boa noite de sono.

Tomei um banho, troquei minhas roupas e notei a cama já arrumada quando voltei para o quarto. Prometi a mim mesma que não iria dormir (afinal essa parecia ser uma atitude muita mesquinha dado que meus amigos estavam desaparecidos), apenas descansar por meia hora. Quando encostei minha cabeça no travesseiro, percebi que aquela seria uma promessa difícil de cumprir. Aos poucos, as lembranças e preocupações do meu dia foram se tornando borrões imprecisos em minha mente. Mas eu ainda não estava dormindo quando ouvi um canto suave adentrar o quarto... Não abri os olhos, já que a melodia distante e gostosa aumentava ainda mais o meu sono. Isso até que eu ganhasse uns segundos de lucidez e percebesse um detalhe... Aquela voz, feminina, familiar e abafada, não pertencia a Vanessa (que estava desaparecida) e tampouco a Francisca (fumante que tinha uma voz grossa demais para permitir qualquer contestação): aquela voz pertencia a Celeste!

Senti um arrepio gélido percorrer minha espinha. 

8 comentários:

  1. Meu Deus Lari! Isso pode dar um livro, sabia? Por que estou tendo sensações iguais quando leio cada capítulo: aquele frio na barriga quando acontece alguma coisa de extrema importância; aquela sensação de quero mais por cada frase lida e aquela vontade louca de ficar sabendo o final... Arrasou! Beijos, Light As The Breeze

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  2. Caramba, essa história fica mais intrigante a cada capítulo! Marcos apaixonado por Celeste? Hum... parece poder ser considerado um suspeito em potencial... Mas e a cantoria no final? Dona Larissa, você está investindo no sobrenatural também agora, é? Não tem como ficar mais diva! Acompanhando à toda essa webnovela! E ansiosa demais para o próximo capítulo!!!!
    Beijos...

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  3. Oh Lord, comassim?!
    A Celeste cantando no quarto, o inquilino da fazenda era apaixonado por ela, o Rafael sabendo disso sei lá como e, porque Deus, ele ainda aluga o celeiro para ele?
    Lari, tu escreve muito bem, cara! Como consegue prender a gente numa história com capítulos tão curtinhos? *---*
    Adorei!
    Beeijos. :*

    Book Addicted.~

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  4. Cruzes! Tá amarrado. ~momento de um filme em que a pessoa começa a fazer o sinal da cruz~ kkkkk
    Ansioso para o próximo capitulo.
    Você escreve muito bem. :)
    Essa estória tem muitos mistérios.

    love-fic.blogspot.com.br

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  5. Que isso, gente ! A Celeste reviveu dos mortos ? #chessuis
    Você escreve perfeitamente bem, e sabe detalhar bastante os sentimentos da personagem.

    Um beijo ♥ Uma outra Estação

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  6. Eu bem que tava imaginando que a Celeste ia aparecer qualquer dia desses, e confesso que era o que eu mais tava esperando! :3 Tô torcendo pra que tenha mais uns 50 capítulos, porque desde que essa webnovela começou, os fins de semana tem sido ainda mais esperados! Quem sabe um livro? \õ/
    Bjo, Sel ;*

    Jovens Gordinhas

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  7. U-A-U. Lari, cada semana você me surpreende mais... Como assim, Celeste viva? E como assim, outro cara apaixonado por ela? U-A-U². Okay, parei. Mas estou realmente muito surpresa, haha. Aguardando ansiosamente o próximo capítulo, como sempre nesse círculo vicioso♥
    Beijos!

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  8. aaah terror, não devia estar lendo isso sozinha de noite! '-'
    meu lado Sherlock diz que o Rafael não é tão inocente quanto parece... Ou seria muito evidente julgar logo o Marcos pela morte de Celeste? Acho que sim hein. Hmmm.

    Ananda Maciel ∞

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