Capítulo V: Passaram-se uma, duas, três horas

— Francisca, o que foi isso? Está tudo bem? — perguntou Rafael assim que a empregada abaixou-se para recolher os cacos de vidro maiores e um ou outro prato que havia ficado inteiro na queda. Com a pergunta de Rafael, ela ergueu os olhos e apressou-se em dizer com uma voz característica de quem fuma muito:

— Peço desculpas, senhor. É que a lembrança da patroa ainda me perturba. Sabe, a forma como ela morreu... a pobrezinha... Oh, senhor, me desculpe de novo! Eu não devia ter falado isso.

— Sem problemas, Francisca. — respondeu Rafael, sorrindo para ela — Eu teria de tocar no assunto agora, de qualquer forma. 

Observei enquanto Francisca tornou ao serviço, abaixando os olhos novamente. A expressão dela continuava um pouco assustada, enquanto as mãos ágeis limpavam a bagunça.

— Respondendo sua pergunta, Emanuela... — prosseguiu Rafael, agora se dirigindo a mim — Celeste foi assassinada. No ano passado, como você já sabe. E a culpa foi toda minha.

Não consegui disfarçar meu sobressalto, tampouco fechar minha boca, que permanecia aberta de perplexidade. "Espera aí: é impressão minha ou ele acabou de confessar ter matado minha prima?" 

— Era um sábado, à tarde. Uns amigos meus, da época da faculdade, estavam de visita na fazenda. Conversa vai, conversa vem, acabaram me convidando para um baile que estava acontecendo numa cidade vizinha, a fim de “relembrar os velhos tempos”. Claro que eu não quis ir. Quer dizer, eu era um homem casado! Celeste começou a rir da minha justificativa, e disse, carinhosamente, que confiava em mim e que não se importaria caso eu fosse. Na verdade, disse que, apesar de estar gripada e indisposta o suficiente para ir comigo, achava que eu deveria ir, com a justificativa de que não é todo dia que a gente tem a oportunidade de sair um pouco da rotina. E me convenceu. E eu fui. Quando retornei à fazenda ainda não era meia noite, mas notei que havia algumas viaturas paradas à porteira. O resto... bem, seria meio perturbador descrever. Posso dizer que, se eu tivesse ficado em casa, se eu estivesse por perto para proteger Celeste, ela não teria sido morta. Ainda mais como foi. Minha esposa foi esfaqueada.

— Oh, céus! — exclamei, com a voz trêmula — Mas quem faria essa barbaridade?

— Aí é que está... — refletiu Rafael, enxugando com as costas da mão os olhos, já vermelhos pelo esforço incessante de conter as lágrimas — Não se sabe quem, tampouco por quê. A polícia encerrou o caso como roubo seguido de morte, mas nada na casa, além de uma caixinha de jóias que nem eram de grande valor pareceu ter sumido na noite em que Celeste morreu.

Eu tinha mais perguntas, obviamente, mas naquele momento o almoço enfim foi servido e o assunto se desfez em vários outros temas que pareciam mais agradáveis para se discutir durante uma refeição, e que de nada tinham a ver com a morte misteriosa e trágica de minha prima. Todos satisfeitos com a comida excelente, Paulo saiu com a desculpa de fazer uma “vistoria” no Opala antes que pegássemos novamente a estrada.

Vistoria feita, voltou dali a cinco minutos, com a excelente notícia que seu carro precisaria ser abastecido, afinal ele não havia notado um vazamento no tanque que lhe rendera um prejuízo considerável de combustível. Uma notícia melhor ainda? O posto mais próximo ficava à quinze quilômetros da fazenda.

Depois de uma calorosa discussão, ficou decidido que Paulo seguiria com Vanessa até a cidade à procura do tal posto, enquanto Felipe e eu esperaríamos na fazenda.

Enquanto esperávamos, caminhamos um pouco pelo pasto baixo e bem cuidado que rodeava o casarão, na companhia de Rafael, que foi esclarecendo mais alguns de meus questionamentos:

— ... e por isso acredito que não foi um roubo. Verdade que a tal caixa de jóias sumiu, mas, veja bem, um ladrão, além de roubar alguma coisa mais valiosa e acessível do que uma caixa que estava escondida no quarto de Celeste, viria armado, ao invés de improvisar uma faca de cozinha ao se deparar com ela!

— Mas se não foi um roubo, qual seria o motivo? Por que alguém iria querer mal a Celeste, tão querida e amada por todos? Ah, Rafael, eu não entendo... — eu rebatia, confusa.

— Entender, eu também não entendo, mas tenho minhas desconfianças. Deus sabe que se eu puder ter certeza quanto as dúvidas que me tiram o sono, o culpado vai se dar muito mal... Isso eu juro.

Eu já ia modelando uma nova pergunta em cima disso, quando o celular de Rafael tocou. Ele desculpou-se dizendo que teria de ir à cidade devido a uma emergência (que ele não explicitou), e disse que se não pudesse retornar a tempo de despedir do nosso grupo, era para pedirmos a Francisca que nos preparasse nova refeição antes de seguirmos viagem.

Depois que Rafael foi embora, passaram-se uma, duas, três horas... e nada de Paulo e Vanessa. Tentamos ligar para o celular de um dos dois, mas fosse lá onde eles estivessem, não havia área de cobertura.

— Fique tranquila, tudo bem? — acalmou-me Felipe, percebendo minha aflição — Conheço aqueles dois, e temos que admitir que a vida no interior tem seu charme. Aposto que estão aproveitando para namorar um pouco, longe da agitação de São Paulo e ao mesmo tempo longe da atmosfera sinistra que ronda esta fazenda.

Sorri como se concordasse, mas, quando eram cinco horas da tarde e ninguém havia retornado, o desespero tomou conta de mim.

14 comentários:

  1. WHAT????!!! Como assim a Celeste foi assassinada - e de forma tão horrível? *o* Oh, já posso imaginar o sofrimento do Rafael, coitado. Espero que consigam achar o criminoso - não sem antes, espero, descobrir onde a Vanessa e o Paula se meteram... Caramba, a situação já não está muito sinistra para mais "notícias boas" assim, Lari?
    Estou amando essa webnovela - e olha que nem é de romance, o que só ressalta o quanto você sabe escrever e desenvolver uma história a ponto de mesmo quem não curte o estilo, ler. <3
    Beijos...

    ♥ SammySacional.blogspot.com ♥
    ♥ DandoUmaDeEscritora.blogspot.com ♥

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  2. Lari, tive que reler algumas coisas para me situar (afinal, estive meio longe da web esses dias), mas nossa, estou amando a história! Os personagens também e confesso que fiquei bastante surpresa com o assassinato!

    Estarei acompanhando sempre que puder ;)

    Um beijo
    Uma excelente e produtiva semana!
    Jhosy

    http://meninamsicaeflor.blogspot.com.br/

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  3. To curiosa. Onde será que eles estão?
    To meio perdida ainda, mas agora to mais perto de entender a história. haha
    Preciso ler os outros capítulos, embora eu já tenha lido alguns.
    Você já pensou em escrever um livro? Talento pra isso você tem de sobra.
    http://denovomaisumavez.blogspot.com.br/

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    1. Acredita que morro de vontade de escrever livros? Rsrs, obrigada pelo incentivo!

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  4. OMG! Comassim esfaqueada? Oo E esse rolê da caixinha? Muuuuito estranho.
    Bem, aposto que eles vão tentar descobrir quem foi que matou a Celeste junto com o Rafael. o//
    Estou adorando, Lari. De verdade. <3
    Beeijos.

    bookaddictedblog.blogspot.com.br

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  5. Como perdi o outro capítulo, reli todos eles. E meu, coitadinha da Celeste... Á princípio eu não confiaria muito nesse Rafael, mas não sei, devo estar errada aushus
    Adorei o capítulo! *o*

    Beijos, old-red.blogspot.com.br

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  6. Voê escreve lindamente, procurando os capítulos anteriores para acompanhar a historia haha <3
    www.quasemeianoite.com

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  7. LOL, gostei do suspense da história. Vou procurar ler os cap. anteriores :3

    Blog: sugar-dance.org/blog (estou de volta :3)

    Bjos! :3

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  8. Gente , que isso . Larissa do céu , quer me matar do coração ? Que web-série perfeita é essa , menina ?! Gente ...

    Beijos ,
    http://blog-uma-outra-estacao.blogspot.com.br/

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  9. Ansiosa pelo domingo, e não venho ler no domingo... u_u' Enfim, já tenho umas ideias do que aconteceram com eles, o que me dói é saber que só tem mais um pouco semana que vem! kkkk ><' Se tu escrevesse um livro, eu seria a primeira a querer um autógrafo! :3
    Bjo, Sel ;*

    Jovens Gordinhas
    Unicórnio com Bigode

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  10. Assassinada? Sinto mistério no ar. Tem caroço nesse angu.
    Você escreve bem.
    Parabéns.

    garotoimpulsivo.blogspot.com.br

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  11. Uau, que terrível a morte da Celeste. Tenho certeza que vem mais surpresa por aí, e como sempre os fatos vão se encaixar... Me encanto com teu jeito único de escrever, Lari. Você tem que escrever não só um livro, mas inúmeros.
    http://menina-do-sol.blogspot.com.br/

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  12. As coisas estão ficando cada vez mais pesadas, né? Cada capítulo é um surpresa diferente. Apenas amando cada vez mais a web série! Beijos, Light As The Breeze

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  13. parece que o Rafael tem culpa na morte da celeste e ao mesmo tempo não, a partir daqui vou ler a história com o meu lado Sherlock, ou Agatha Christie.
    ... 3 horas e a Manu e o Felipe não aproveitaram pra se acertar? :(

    Ananda Maciel ∞

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