“Vó, me ensina a dançar valsa?"

Escova de dente, escova de cabelo, gloss e as tranqueiras habituais que sempre tive mania de carregar. Está tudo na bolsa? Está. Ops, espere: faltou o pijama branco de flanela. Aquele que costumava servir em mim quando eu tinha 8 anos.

Dentre as mais marcantes das lembranças que tenho, estão as que dizem respeito às noites em que eu ia posar na casa da minha avó paterna. Eu arrumava minhas coisas na bolsa tão rápido quanto podia, e tentava chegar lá bem antes do horário de dormir a fim de ter mais tempo ao lado dela.

Primeiro, a gente ia assistir à novela. Para cada ator que aparecia na tela, minha avó perguntava, em tom de brincadeira: “Nossa, esse moço é bonito, né? Você não acha?”. Às vezes eu discordava, às vezes era impossível não concordar. O fato é que podíamos perder um bom tempo com aquilo e outras conversas aleatórias, aproveitando os intervalos para ir até a cozinha preparar um mingau de aveia ou algo do tipo.

Onze horas. “Vó, me ensina a dançar valsa agora?”. Ela abria um grande sorriso quando eu fazia o pedido e o atendia prontamente, mexendo em sua coleção de discos de vinil, citando uma ou outra cena da juventude e afirmando que eu estava certa em querer aprender, afinal algum dia um rapaz me tiraria para dançar e eu deveria impressioná-lo. Engraçado pensar nesse tipo de coisa hoje em dia. Não só porque os bailes — e os rapazes, e as moças — estão longe de ser como os de antigamente, mas porque eu sou completamente desajeitada e, mesmo com todas aquelas idealizações de festas de quinze anos e formaturas que eu tinha quando pequena, fiz questão de rejeitar qualquer oportunidade de dança que tive. Enfim, devaneios à parte, ela me oferecia as opções e na maioria das vezes eu ficava com Nelson Gonçalves. Sei lá... era difícil não me deixar levar pela melodia do cantor boêmio que seduzia corações boas décadas atrás. E minha avó era apaixonada por ele (sei disso porque ela teve uma espécie de ataque de felicidade quando descobriu que eu havia decorado um trecho de Caminhemos), sério! Do Nelson, a gente ia à famosa Carinhoso, e das valsas partíamos logo ao tango — que nenhuma de nós duas sabia dançar, mas improviso nunca foi problema.

Já passava da meia noite quando íamos para o quarto dormir. Ficou meio estranho depois que meu avô faleceu, porque eu sabia que ela sentia falta dele e eu também, mas não ocupávamos aqueles minutos com lembranças tristes e saudade sem tamanho. Ou, talvez, um pouco... Com a luz apagada, ela começava a narrar as memórias de sua infância. Em Caldas, em São Paulo, depois em Caldas e em São Paulo de novo. Cada lugar com suas particularidades, cada lembrança com sua magia. Então, eu caía no sono...


11 comentários:

  1. Oh, que fofinho que ficou o texto *-* Eu também me lembro quando ia para casa da minha avó que tinha o mesmo nome do que eu,ela tinha cancro/câncer no nariz, fez várias cirurgias e ficou com o nariz e a boca deformadas :'( Lembro-me de ela me ler livros que encomendava do Circulo dos Leitores :c Lá mais para o fim, quando ela morreu,eu já não entendia o que ela dizia :( É triste... Eu gostei de ler as tuas memórias, foi bonito <3

    Kiss~

    kim-chikimchi.blogspot.com

    ResponderExcluir
  2. Lari, esse post foi incrível! Eu moro com meus avós, então sempre meu avô tá me mostrando músicas de quando ele era mais jovem, algumas conhecidas, outras nem tanto, e conversando sobre muitos assuntos diferentes, acho que quase qualquer coisa dá pra conversar com ele, e a conversa dura bastante, ele é muito legal pra se falar! Também gosto de ouvir as histórias antigas dos tempos de FAB dele, são demais *-*

    >> blog-espelhodigital.blogspot.com

    ResponderExcluir
  3. Eu costumava conversar muito com minha vó, mas depois que meu vô morreu, ela tem ficado doente várias vezes, e quando alguém conta histórias antigas, ela começa a falar dele e se entristece, então nem converso mais... :(
    Enfim, gostei de saber sobre as suas lembranças! ^^
    Bjo, Sel ;*

    Jovens Gordinhas
    Unicórnio com Bigode

    ResponderExcluir
  4. Que perfeito esse post C:
    Amo seus textos , Lari . Kiss

    http://blog-uma-outra-estacao.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  5. Lembranças de vó são tão boas, não? O que eu seria sem a minha? E tudo que a gente aprende e que lembramos de suas conversas... Ai ai... Viajei nesse post. Obrigada Lari.
    Beijos,Mariana Nascimento.
    sendopeculiar.blogspot.com

    ResponderExcluir
  6. Oh God *---* Esse texto me fez lembrar da minha avó, eu simplesmente amo ficar com ela :3 É desse jeitinho aí, principalmente quando decidimos assistir algo juntas haha' (ah vovó) ela me faz um bem danado ^-^ Amei mesmo o texto Lari, muito bom <3 Beijo

    ResponderExcluir
  7. Que avozinha mais preciosa! Que gostoso dançar valsa e ter histórias para contar! Grande Nelson Rodrigues!:)

    ResponderExcluir
  8. Sinto tanta falta da minha avó, poxa! Ela faleceu alguns anos após meu avô e eu ainda era pequena, não sabia o real sentido de partir e nunca mais voltar, sabe? Tenho meus avós paternos, mas a nossa relação não é lá das melhores... Meu pai é adotado, então sabe, eu e minha irmã mais velha não temos altas relações com nossos avós, mas gostamos deles. É complicado... Adorei o post, Lari! Agora um conselho de amiga: aproveita cada momento com a sua avó, tá bom? Depois que a gente perde é difícil de esquecer os momentos dos quais passamos juntas. Não briga com ela, dê muitos abraços e beijos, ajuda ela na cozinha, joga baralho, pede conselhos amorosos... Faz dela sua melhor amiga! Beijos, Light As The Breeze

    ResponderExcluir
  9. Own, que lindo♥ Me lembrou O Céu Está em Todo Lugar. Vó é vó, né? E quando partem deixam um vazio tão grande... Cada uma com suas manias, lembranças e balas de caramelo. Que saudade.
    Beijos<3
    http://menina-do-sol.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  10. Rs, que texxxxxxto fofo, embora minha vovó n seja bem humorada, faz mó parte da minha vida, RS e meu querido vô n está mais comigo, por isso o fato da minha vozinha está bem abalada, mas meu avozinho, gostava de dançar forró.
    Adoro seus textos, você sabe né, saudade deles.
    ex-pressando.blogspot.com

    ResponderExcluir
  11. Cara, que texto lindo..
    eu normalmente procuro sempre ler o que as pessoas postam, mas confesso que as vezes o texto é cansativo e chato...
    mas cara, você tem um dom de facilitar a leitura de quem te ler,
    sua linguagem é gostosa e macia, me envolvi totalmente nas suas memórias, consegui me transportar pra casa da sua vó e reviver todas essas memorias contigo..
    enfim, eu adorei, voce é muito sensivel nas palavras...

    beijos flor
    www.doce-vestido.com.br

    ResponderExcluir