Capítulo III: A Fazenda Bernardes Gomes

Olhei através do para-brisa meio opaco pela poeira, e o que vi foram alqueires de terra a perder de vista. Imediatamente me lembrei das fotos das fazendas latifundiárias que sempre estampavam os livros de Geografia. Ao longe, um casarão que sustentava grandes janelas e outras características das arquiteturas antigas, fazendo-me lembrar agora dos livros de História e levando-me a acreditar que aquelas paredes estivessem de pé desde a época em que os escravos compunham a maior parte da mão-de-obra brasileira. 

Felipe estacionou o carro e saiu, apressando-se em abrir a minha porta para que eu pudesse sair também. Assim que coloquei os pés no chão, arrependi de estar usando vestido: o mato já crescido pinicava minha canela, causando uma sensação estranha que pendia entre coceira e dor. Isso, somado ao meu mau-humor sobre o qual Felipe havia falado, fez com que eu soltasse um palavrão que saiu mais alto do que eu esperava e, pior, bem na hora em que alguém parecia ter se aproximado sem que eu percebesse. Ergui a cabeça, as bochechas queimando de vergonha. Ao lado da cerca, um rapaz alto, com a pele morena e mãos que não denunciavam o trabalho pesado que a vida no interior exigia. Era Rafael, descobri depois. E era bem bonito, por sinal. Usava uma camisa branca meio aberta, que mostrava um peitoral definido. Mantinha uma expressão confusa, mas sorria como se desejasse boas vindas e estivesse há muito tempo esperando nossa visita. Inclusive, reparei nisso tudo enquanto meu namorado tentava explicar o motivo da mesma. 

Assim que Felipe terminou de falar e eu pude finalmente me apresentar a Rafael, ele apertou minhas mãos, dizendo:

— É um prazer conhecê-la, Celeste falava muito de você!

Estranhei o verbo no passado, o “falava”. Mas ele fazia algum sentido, afinal eu não mantivera contato com minha prima nos últimos dois anos. "Ela, provavelmente imaginando que eu estava muito ocupada com os estudos do ensino médio, não tornou a me escrever cartas. Eu, realmente ocupada demais com meus próprios problemas, não me preocupei em bancar a social."

Poxa, como eu conseguia ser egoísta! Senti um remorso instantâneo. “Bancar a social”. Celeste não era uma estranha para que eu precisasse “bancar a social”. Além de egoísta, senti-me ridícula por pensar assim. Celeste era da família, e éramos quase como irmãs na infância. Ela também morava em São Paulo, e sempre dávamos um jeito de nos encontrar para brincar até cair a noite. Até que, quando eu já tinha oito anos (e ela onze), a mãe dela, que era viúva e não raramente passava por dificuldades financeiras, conseguiu uma oportunidade de emprego excelente em Minas, e sem hesitar arrumou as malas e se mudou com Celeste para lá.

Desde então, nós duas nos víamos muito pouco. Inclusive, foi pouco antes da última carta que ela me enviou que soube que havia se casado. 

Finalmente eu estava conhecendo Rafael, o charmoso filho mais velho de um fazendeiro conhecido na região, que havia herdado as terras do pai. É óbvio que Celeste não o escolheu por dinheiro: eu podia notar nas palavras escritas o quanto ela era apaixonada por ele e a forma como ele correspondia. Agora, eu reconhecia que minha prima era mesmo uma mulher de sorte. 

Quando Vanessa e Paulo se juntaram a nós, e estávamos prestes a adentrar a propriedade de Rafael ou, melhor ainda, a Fazenda Bernardes Gomes, perguntei, com inocência:

— E Celeste, cadê? Estou com saudade da prima e ansiosa para lhe dar um abraço!

Então eu finalmente pude entender a confusão que estava estampada no rosto de Rafael desde que havíamos chegado e Felipe tentara dizer-lhe o porquê de estarmos todos ali. Ele correu os olhos rapidamente por cada um do grupo, parando o olhar em mim, e dizendo numa voz vazia (porém cheia de significado):

— Meu Deus, acho que agora eu estou entendendo. Eu não estava entendendo a princípio, mas agora estou. Vocês ainda não sabem. Celeste faleceu já faz quase um ano.

9 comentários:

  1. Amei! Ficou perfeito, como todos os outros capítulos! Quanta confusão, né? Quero mais capítulos logo <3 Beijos, Light As The Breeze

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  2. Estou amando essa história , cara ! *-*
    Hey , aceita afiliação ?
    Kissus | http://blog-uma-outra-estacao.blogspot.com.br/

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  3. OMG! O.O Como assim? Lari, tá perfeito (sempre digo isso, e realmente sempre é isso) e agora sim tô amando essa webserie! *---* Já li muitas e, essa parece que será uma das minhas preferidas. Mas aqui entre nós, Lari, só no outro domingo? kkk' Desculpa mas, é que é torturante esperar kkk' ^-^
    Beijo <3

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  4. Eita, começou a onda de surpresas e mistérios, e já estou prevendo mais e mais coisas assim nos capítulos seguintes. Você gosta de criar um suspense, né? *---* Mas, claro, você arrasa assim! Gostando cada vez mais da webnovela!
    Beijos...

    ♥ SammySacional.blogspot.com ♥
    ♥ DandoUmaDeEscritora.blogspot.com ♥

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  5. Oooi Lari, Tudo bem? Menina tô tão feliz com a web novela nova!!!! Ia comentar no primeiro capítulo e acabei não conseguindooo, mais queria passar para falar que vou acompanhar ela todinha hahahaha
    Adorei a ideia de colocar um pouco de suspense misturado com terror, eu vou ficar mais curiosa do que costumo ficar normalmente!
    Já estou surtando com Rafael, Celeste e Manu... Muito amooor por Manu hahaha E dó da Celeste... Agora não consigo saber sobre o que falar de Felipe e Rafael (mistério)

    Torcendo muito pela série! <3

    Beijinhos Bi

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  6. Ah meu Deus! Que perfeito! Dá vontade de te obrigar a postar amanhã já! kkkk >< #Brinks Tô ansiosíssima pelo próximo capítulo. Não vejo a hora de chegar domingo! :3
    Bjo, Sel ;*

    Jovens Gordinhas
    Unicórnio com Bigode

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  7. Nossa, e agora? Você sabe surpreender os leitores, haha. Estou muito curiosa pra saber onde tudo isso vai dar...

    http://menina-do-sol.blogspot.com.br/

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  8. Eita, Lari! Comassim, mal começou e ela já está morta?! D:
    Estou adorando a história e vou correndo ler os próximos capítulos!
    :*

    bookaddictedblog.blogspot.com.br

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  9. Certo, agora tá emoção OMG
    Não, por favor, que ela não troque o Felipe pelo Rafael...........

    Ananda Maciel ∞

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