Capítulo II: Longe da monotonia dos passeios de sábado

As ruas asfaltadas e os prédios cinzentos da minha cidade agora davam lugar à estrada de terra e às árvores de todos os tipos e tamanhos, que passavam depressa pelo vidro do carro como um borrão esverdeado. O calor estava de rachar. Do meu lado, Felipe dirigia, impassível. Enfim, eu disse, a fim de quebrar o silêncio:

— Você podia dirigir mais devagar. A gente está indo para uma espécie de fazenda ou sei lá o quê no interior de Minas, então não vejo o porquê desta pressa em chegar.

— Não é pressa. — respondeu ele com um meio sorriso e sem retirar os olhos do trajeto – Só estou aproveitando o fato de meu pai ter me emprestado o carro sem hesitar muito, e de eu estar dirigindo num fim de mundo onde não há trânsito. Não há motivos para não aproveitar.

— Na verdade, há sim. — rebati — Você deveria se lembrar que é menor de idade e ainda não tem carteira de motorista.

— E você deveria se lembrar que não tem nenhum tipo de policiamento num raio de 100 quilômetros daqui. Além disso, faço 18 no mês que vem. Relaxe, moça.

— Ainda faltam 27 dias para o mês que vem.

— Nossa, mas o que é isso, heim, Emanuela? Poxa, seu humor está péssimo.

Não respondi. Felipe estava certo, meu humor não estava dos melhores, mas como eu poderia estar feliz? Um dia antes, quando Vanessa disse que “nós precisávamos apenas de uma viagem incrível”, eu não imaginei nada parecido com aquilo. Então, quando ela ergueu o papel que estava em suas mãos, simplesmente não entendi do que se tratava. Fui perceber só depois: ela segurava uma carta que eu havia recebido de minha prima Celeste um bom tempo atrás. Na carta, Celeste me convidava para ir passear em sua fazenda no interior de Minas Gerais, onde morava com Rafael, seu esposo. Na época, respondi com outra carta educada, do tipo “Oh, claro, na primeira oportunidade irei visitá-la”, mas era óbvio que eu não estava realmente com alguma vontade de me aventurar por onde Judas perdeu as botas.

Dois anos depois, fui ter a ideia brilhante de fazer uma faxina na minha gaveta, esquecer a tal carta junto aos meus outros rascunhos sobre a escrivaninha e ter o azar que permitiu que a maluca da Vanessa a encontrasse assim, por acaso. Um acaso que ela chamou de destino e julgou ser a oportunidade perfeita para que eu reascendesse meu amor por Felipe. Antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa para tirar essa ideia absurda de sua cabeça, ela já foi logo dizendo:

— Não vai ser um resort de luxo nem nada disso, mas fazendas estão totalmente com tudo!

— Com certeza, o sonho de qualquer casal adolescente é passar um final de semana na roça dos parentes, afinal tomar leite fresco pelas manhãs e tratar das galinhas é tão romântico... — respondi

— Não use de ironia comigo. Você não está entendendo meu ponto de vista. O que estou querendo dizer é que vai ser uma boa para você e para o Felipe passar uns dias longe da monotonia dos passeios de sábado na cidade, dos quais você estava reclamando agorinha mesmo. Uma quebra de rotina, entende? Qual é, vai ser legal, Manu! Fazendas geralmente são enormes, então não vai ser como se sua prima e o marido dela ficassem no pé de vocês dois o tempo todo. Sem falar que um pouco de ar puro faz bem para a pele e para os nervos.

— Só me diz uma coisa... Como você espera que meus pais permitam que eu passe um final de semana numa fazenda que fica à duzentos quilômetros de distância e, detalhe: com o meu namorado?

— Bom, é a casa da parente da sua mãe, então...

— Sem chance.

— Está bem, está bem, deixe-me pensar... Que tal se o Paulo e eu formos junto?

Refleti alguns segundos sobre isso. Esses segundos mal se passaram e Vanessa já tinha saído correndo do meu quarto para ir conversar com minha mãe, que estava na cozinha. Não faço a menor ideia de quais argumentos ela usou para convencer a Dona Elvira, só sei que, em seguida, ela já voltou ao quarto com um sorriso que ia de uma ponta a outra do rosto, e começou a discar os números do Paulo e do Felipe, planejando tudo.

Eis o resultado de toda essa palhaçada da Vanessa. Nós quatro seguindo por um caminho empoeirado que parecia não ter fim. O Felipe e eu na frente, no carro do pai dele, e a Vanessa e o Paulo pouco mais atrás, no velho Opala cor de bronze que é o xodó do companheiro dela. Eu ainda estava perdida em devaneios quando Felipe disse, freando e finalmente se virando para mim:

— É, pelas indicações que estavam na carta, acho que é aqui. Chegamos!

12 comentários:

  1. Caramba, eu li o outro capítulo e agora esse, estou muito curiosa pra saber o que vai acontecer depois! Que mistério essa tal fazenda esconde? hahaha suspense, muito suspense...

    Beijos, old-red.blogspot.com


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  2. Que incrível! Eu quase ia ler o primeiro capítulo de novo, mas lembrei de tudo! Uma fazenda... Pode acontecer várias coisas legais lá! ^^
    Bjo, Sel ;*

    Jovens Gordinhas
    Unicórnio com Bigode

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  3. Curti bastante o capítulo. Mas, como já se faz entender, pelo jeito vão rolar muitas aventuras - ou desventuras - de sobra por aí, e eu sei bem como você gosta de caprichar, hein, Lari. Só não acaba com os personagens antes do tempo, tá? rs
    Sobre o Felipe... ainda é meio cedo para dizer se simpatizei com ele ou não. Estou tentando ser racional e controlada, ao menos. *-*
    Beijos...

    ♥ SammySacional.blogspot.com ♥
    ♥ DandoUmaDeEscritora.blogspot.com ♥

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  4. Você e seus mistérios me deixando louco. Por que Brutus? kkkkkk
    O capitulo foi revelador rsrs Estou esperando a estória realmente começar.

    Beijos,
    garotoimpulsivo.blogspot.com

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  5. "onde Judas perdeu as botas." pensei que era a unica a ainda usar essa expressão kk' .-. Lari, está praticamente perfeito mas, essa tua ideia de terminar o capitulo na melhor parte, me deixa louca! kkk' Você escreve muito bem <3

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  6. UAU. Eu não tinha ideia que você estava planejando algo assim... Isso que dá ficar desaparecida. Preciso dizer que super hiper mega mega mega amei?♥ Meu Deus. Está ficando muito demais.
    Exageradamente eu, aguardando o próximo capítulo c=
    Beijos<3
    http://menina-do-sol.blogspot.com.br/

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  7. Caramba, que perfeito! Será que a cada capítulo vai ser uma surpresa diferente e uma vontade imensa de querer domingo novamente? Amei!
    Beijos, Light As The Breeze

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  8. Nossa você escreve muito bem, tem muito futuro como escritora desejo a vc muito sucesso, seguindo seu blog <3
    ~> Quase Meia Noite

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  9. Que maravilhoso *3* Estou ansiosa para ler o resto, aposto que vai ser ainda melhor x3

    Kiss ♥

    ♥kIm'chi, kIm'chi

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  10. Simplesmente adorando.~ <3

    bookaddictedblog.blogspot.com.br

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  11. Essa Dona Elvira é muito legal, imagina se minha mãe deixa eu sair assim '-'

    Ananda Maciel ∞

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