Falatório aleatório [VI]

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Tem chegado com frequência à minha caixa de entrada uns e-mails intitulados “Larissa, você lembra?” Acho isso meio assustador. Tipo, naquele um segundo antes de eu me dar conta de que é só o Mercado Livre fazendo propaganda de algum produto já conferido, quase dá para pensar que estão me enviando a imagem de uma cena de crime com os dizeres “Nós lembramos” e uma ameaça no estilo eu sei o que você fez no verão passado. Não que eu tenha feito algo, mas...

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Já tem um tempo, venho reorganizando minha parte do armário da cozinha com recipientes reaproveitados. Bombril e água resolvem o problema dos rótulos nos potes de margarina e sorvete, que então passam a guardar açúcar, tempero e tudo que há de bom. Mas meus preferidos mesmo são os vidros que em vidas passadas guardaram doce. Tenho quatro. Queria mais alguns deles, mas, devido à minha espécie de TOC: tinham que ser do mesmo jeito, com o mesmo formato, com a mesma tampa dourada. Tá, né. Daí, semana passada, descobri que esses que já tenho não são iguais. NÃO SÃO IGUAIS. NÃO SÃO.

Fui enganada por mais de um ano. Não sei mais o que faço com a minha vida.

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Minha presença a feirinhas alternativas é bastante assídua. Aqui onde moro, ao segundo sábado de cada mês, acontece uma que tem artesanato, brechó, sebo, antiguidades, comida caseira, gente bacana... Daí tem também essa senhora que borda paisagens à máquina. Um quadrinho mais bonito do que o outro. Todos possuem um céu bem azul, mas, apesar de eu gostar muito de céus bem azuis, não consegui controlar meu lado pluviophile e perguntei se ela faria para mim um com o céu cinza. Ela fechou o sorriso. “Cinza???”, encarando-me incredulamente. “Cinza é meio depressivo, não?” 

Fez-se um curto silêncio. De algum recanto longínquo da minha mente, começou a tocar “Hello darkness my old friend...” Sorri. “Deixa pra lá. Esse aqui tá lindo. Vou ficar com ele mesmo.